PALAVRA DO DIA

WORD DAILY
Habacuque 3:2 Ouvi, SENHOR, a tua palavra, e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Santo Agostinho: “Intellige ut Credas, Crede ut Intelligas” por Sávio Laet de Barros Campos



1) Santo Agostinho: “Intellige ut Credas, Crede ut Intelligas”

Autor: Sávio Laet de Barros Campos. Licenciado e Bacharel em Filosofia Pela Universidade Federal de Mato Grosso. E - m a i l :s a v i o l a e t @y a h o o . c o m . b r Agostinho foi o grande mestre do ocidente cristão.Estamos no século IV. 1.1)

A Conversão: Pressuposto do Pensamento Agostiniano Enquanto ainda era maniqueísta, vivia sobre a promessa desta seita, qual seja pelo conhecimento racional alcançaria a fé nas Escrituras. Livre dos maniqueus, Agostinho concebe que, deve-se arrancar da fé para chegar a inteligência. Os maniqueísta haviam-lhe prometido levá-lo a fé nas Escrituras a inteligência pelo conhecimento racional; santo Agostinho propor-se-á, a partir de então, alcançar pela fé nas Escrituras a inteligência do que elas ensinam.1 A conversão, como assinala K. Jarspers, é o pressuposto que funda todo pensamento agostiniano. Na conversão a fé passa a ser qualquer coisa de inquestionável, tão certa que não precisa ser apurada quanto a sua veracidade, ela é dom de Deus: (...) A conversão é o pressuposto do pensamento agostiniano. Somente na conversão é que se torna certa a fé, que não é necessitada por nada e não pode ser transmitida através de nenhuma doutrina, mas lhe é dada em dom por Deus.

2 1Etienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. p. 144 2K. Jaspers. Os Grandes Filósofos. In: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média.5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991. p. 434.

Daí a importância capital de se conhecer a biografia de Agostinho para lhe penetrar o pensamento.3 Quem está alheio a este momento da vida de Agostinho– acentua Jaspers- ficará estranho ao seu fundamento: “Quem não experimentou por si mesmo a conversão sempre encontrará algo de estranho em todo pensamento que nela se fundamenta.”4 A fé em Agostinho, ainda nas palavras de Jaspers, é um acontecimento único. Tocado por Deus, este lhe muda até as entranhas, e não somente o pensamento. (...) mas sim um acontecimento único, que, por sua essência, é diferente no seu sentido e na sua eficácia: consciente de ter sido atingido imediatamente por Deus, o homem se transforma até a corporeidade do seu ser e nos objetivos que se propõe.5 Trata-se de um novo homem, com uma nova hierarquia de valores e um novo modo de pensar: “Juntamente com o modo de pensar, muda também o modo de viver.6 Mas do que isso, quando sua biografia muda, esta transforma o seu modo de pensar nas suas bases: Tal conversão não é mudança de rota filosófica, que precisa ser renovada a cada dia (...), mas um momento biograficamente datável, que irrompe na vida e lhe dá uma nova base.7 1.1.1) A Avaliação da Filosofia Não é a filosofia que muda nele, nem o modo de filosofar, mas sim – conclui Jaspers - é a avaliação que faz da filosofia, o modo com a

3O Leitor nos perdoe a aparente contradição. De fato, uma pergunta de coloca: Se a biografia do autor é necessária, porque não a abordou? Achamos por bem prescindir da biografia, ela estenderia demais o que quer ser apenas um artigo introdutório ao tema. 4K. Jaspers. Op. Cit.. In: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale.História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média.5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991. p. 434. 5Idem.Op.Cit.. 6Idem.Op.Cit. 7Idem.Op.Cit p. 434 e 435.

qual a encara.8 De fato, existe uma luz interior que nos é interior, e ao mesmo tempo nos transcende. Esta luz é maior que nós, maior que o próprio filosofar.9 Jarspers acentua que Agostinho, na sua conversão, reconhece quão exagerado era a sua admiração pela filosofia: “Agostinho reconhece que a sua admiração anterior pela filosofia (como dialética) era absolutamente exagerada.”10 A bem- aventurança que perseguia encontra-se em Deus, e este só se deixa alcançar pelo único caminho que é Cristo: “A bem- aventurança encontra-se em somente no anseio de Deus; mas essa bem- aventurança pertence somente à vida futura e o único caminho para chegar a ela é Cristo.”11Para uma felicidade terrena, bastar-lhe-ia uma filosofia humana, mas, para uma felicidade eterna- que acabara de descobrir- é necessário uma sabedoria divina. A filosofia, encontra-se, por fim, reduzida e o pensamento Bíblico é o que lhe afigura como essencial.12 Com efeito, ninguém pode atravessar o mar do século se não for carregado pela cruz de Cristo: “(...) Ninguém pode atravessar o mar do século se não for carregado pela cruz de Cristo.”13 1.2)A Distância do Fideísmo Apesar de toda esta mística em torno da fé e do encontro com Deus, longe de Agostinho todo ranço de fideísmo, ele não é irracional.14 A fé estimula a inteligência e mais, ela lhe pressupõe.15 Destarte, a fé

8Idem. Op. Cit p. 435: “No movimento do filosofar, do autônomo ao crente-cristão, parece tratar-se do mesmo filosofar. (...). Acima de qualquer outra coisa (depois da conversão), o que mudou foi a avaliação da filosofia.” 9Idem.Op.Cit: “Agora, porém, passava a ser avaliada (a filosofia) negativamente: a luz interiorestá mais no alto.”( OParênteses é nosso). 10Idem. Op. Cit: “Agostinho reconhece que a sua admiração anterior pela filosofia (como dialética) era absolutamente exagerada.” 11Idem.Op.Cit 12Idem. Op. Cit: “Desse modo, reduziu-se o valor da filosofia (como mera dialética). O pensamento bíblico-teológico torna-se a única coisa essencial.” 13Agostinho. In. DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média.5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991. p. 436. 14Giovanni Reale. História da Filosofia: Antigüidade e Idade Media: p. 435:“(...) Agostinho está bem distante do fideísmo, que não deixa de ser uma forma de irracionalismo. “ 15Giovanni Reale. Ibidem:“(...) A fé estimula e promove a inteligência.”; Agostinho. Comentário ao Evangelho de João. 29, 6:in: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale

consiste, antes de tudo, num pensamento que assente; ora, isto equivale a dizer que sem pensamento não há fé: “A fé é ‘ cogitare cum assensione’, modo de pensar assentindo; por isso, sem pensamento não haveria a fé.”16 Outrossim, a inteligência não elimina, antes esclarece e clarifica a fé: “E analogamente, por seu turno, a inteligência não elimina a fé, mas a fortalece, e, de certo modo, a clarifica”.17 Fé e razão se complementam18, porque se a fé busca a inteligência encontra: “Afé busca, a inteligência encontram.”19 Doravante, a inteligência será a recompensa daquelecrer: “ intellectus merces est fidei, ‘ a inteligência é recompensa da fé’”.20 1.3)Razão e Fé 1.3.1) Compreender Para Crer Não é estranho a Agostinho ainda uma atividade da razão que preceda à da fé. De fato, embora as verdades de fé nos sejam indemonstráveis, pela razão, podemos perceber a conveniência de a elas assentir. Portanto, a indústria da razão que precede a fé consiste em mostrar a pertinência do conteúdo da fé: Sem dúvida, um certo trabalho da razão deve preceder o assentimento às verdades de fé; muito embora estas nos sejam demonstráveis, pode-se demonstrar que convém crer nelas, e é a razão que se encarrega disso.

21 História da Filosofia: Patrística e Escolástica.Trad. IvoStorniolo. Rev. Zolferino Tonon. 2º ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 104: “Justamente porque não entendes, crês; mas, crendo, tornas-te capaz de entender, com efeito, se não credes, jamais conseguirás entender, porque te tornarás sempre menos capaz.”16Idem.Op.Cit 17Idem.Op.Cit
18Idem.Op.Cit: “(...) fé e razão são complementares(...)”.
19Agostinho. A Trindade.XV, 2, 2. In: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da
Filosofia: Antigüidade e Idade Média.5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991. p. 436. 20Giovanni Reale. História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média:p. 435. Agostinho. Comentário ao Evangelho de João. 36, 7. in: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Patrística e Escolástica.Trad. Ivo Storniolo. Rev. Zolferino Tonon. 2º ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 105: “Eu dissera: se alguém crer; e tinha dado este conselho: se não compreendeste, crê! A inteligência é fruto da fé!” 21Etienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. p. 144

1.3.2) Crer Para Compreender Hora, se há um concurso da razão que precede a fé, impõe-se outro que a sucede. Agostinho não se cansa de repetir: “É preciso crer para compreender (Nisi credidritis, non intelligetis)”22. Se aceita as verdades da fé para, proporcionalmente as nossas possibilidades neste mundo, conseguirmos obter alguma inteligência sobre elas: Portanto, há uma intervenção da razão que precede a fé, mas a uma segunda, que a segue. Baseando-se numa tradução, aliás incorreta, de um texto de Isaías pelos Setenta, Agostinho não se cansa de repetir: Nisi credidritis, non intelligetis. Há que aceitar pela fé as verdades que Deus revela, se se quiser adquirir em seguida alguma inteligência delas, que será a inteligência do conteúdo da fé acessível ao homem neste mundo.23 1.3.4) A Síntese Agostiniana: Compreender Para Crer, Crer Para Compreender. Agostinho no célebreSermão 43 expressa numa fórmula solene esta dupla atividade da razão: “compreender para crer, crê para compreender (intellige utcredas, crede utinelligas) .”24 Compreendendono que se deve crer, cremos25; crendo, podemos compreender naquilo que cremos.

22Agostinho. Comentário ao Evangelho de João. 29, 6: in: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Patrística e Escolástica. Trad. Ivo Storniolo. Rev. Zolferino Tonon. 2º ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 104: “ “Não procures, portanto, entender para crer, mas crê para entender; porque, se não credes, não entendereis.” (O itálico é nosso). 23Etienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. p. 144. Agostinho. Comentário ao Evangelho de João. 36, 7. in: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Patrística e Escolástica.Trad. Ivo Storniolo. Rev. Zolferino Tonon. 2º ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 105: “Eles não creram porque tinham conhecimento, mas creram para conhecer. Creiamos também nós para conhecer, não esperemos conhecer para crer.” 24Etienne Gilson. A Filosofia na Idade Média. p. 144: “Um texto célebre doSermão43 resume essa dupla atividade da razão numa fórmula perfeita: compreender para crer, crê para compreender (intellige ut credas, crede ut inelligas).” 25Aqui compreender não significa conhecer o mistério, mas apenas ter presente qual o objeto ao qual devemos assentir. Por exemplo, saber que a Trindade deve ser crida não significa compreender o seu mistério!

Se por um lado, é preciso partir da fé, por outro é dever de quem crê buscar inteligir aquilo que crê, pois o fim último do homem não é crer, mas conhecer.

BIBLIOGRAFIA Agostinho. A Trindade. in: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale.História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média.5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991. _____. Comentário ao Evangelho de João. DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Patrística e Escolástica. Trad. Ivo Storniolo. Rev. Zolferino Tonon. 2º ed. São Paulo: Paulus, 2005. p. 104e 105. DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média. 5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991.p. 428 a 460. GILSON, Etienne. A Filosofia Na Idade Média. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: MARTINS FONTES, 1995. p 142 a 158. PHILOTHEUS BOEHNER, Etienne Gilson.História da Filosofia Cristã, Desde as Origens até Nicolau de Cusa. 7ºed. Trad. Raimundo Vier. Rio de Janeiro: VOZES, 2000.p. 139 a 208. JASPERS. Os Grandes Filósofos. In: DARIO ANTISERI, Giovanni Reale. História da Filosofia: Antigüidade e Idade Média.5º Edição. (Coleção Filosofia). São Paulo: Paulus, 1991.

Creditos à http://www.scribd.com/doc/3119504/Agostinho-Fe-e-Razao-em-Santo-Agostinho

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

OS PECADOS DE ONTEM, PARA O DIA DE ONTEM!



OS PECADOS DE ONTEM, PARA O DIA DE ONTEM!

Por Roberto Takeshi Suehiro

Porque serei misericordioso para com suas iniqüidades, E de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais.Hebreus 8:12

Sabemos que o Ser humano por si próprio vive uma vida, em conexão com o passado constantemente, com boas e más lembranças, talvez lembranças de um época do casamento em que tudo era um mar de rosas, a morte de um ente querido, coisas em que ele fez nos quais, hoje ele não faria! Enfim, ele sempre está preso a alguma lembrança do passado.

Lembranças boas são ótimas de recordá-las, e isso é algo rotineiro, até as ruins servem de lição, porque podemos falar do futuro, mais é através das do passado que aprendemos lições, porém o grande problema não são as lembranças boas, mais sim as experiências ruins do passado! Uma traição de um conjugue, ou um acidente automobilístico, palavras que levaram a uma desunião familiar, atitudes que ofenderam pessoas pelas quais você tem um apreço, ou coisas que você fez no passado que hoje se expostas te envorganharia profundamente!

Há sempre este estigma, onde o ser humano, sente uma dor profunda, por algo que ocorreu no passado, pelo qual não houve a solução, ou seja, não teve um desfecho muito agradável, por exemplo, o não recebimento de perdão de alguém que você magoou, ou uma pratica sua pelo qual é difícil de você não recordá-la e sentir na pele, o profundo inconformismo por sua atitude, por exemplo: você diz: como eu posso ter feito aquilo?

E sempre nos deparamos com isso, mais o melhor de tudo é quando recebemos a chamada de Cristo, e este estigma vai sendo retirado das nossas vidas, porque neste processo, até entendermos Rm 8:1, o Diabo nos acusa de uma forma pesada e suja, utilizando pessoas, pensamentos, procurando gerar uma tristeza absurda em nossas vidas!

Mais neste processo onde começamos a caminhar com Cristo, e te digo entender a graça leva um tempo, no inicio da minha fé, de certa forma, fui ensinado inconscientemente ou conscientemente, que a salvação vem pelas obras, lógico é normal isso acontecer pois tudo que recebemos no inicio da nossa fé, tomamos como verdade absoluta, pois ainda não somos exercitados a filtrar tudo pela as escrituras, e por isso me sentia excessivamente cobrado para gerar frutos pelos quais, são meros esforços na carne, logicamente entendendo que nenhum trabalho é em vão, porém vivia sobre esse jugo de servidão. E te digo me gerava tristeza, pois as obras realizadas pelos nossos próprios esforços só geram frustrações que culminam em acusações desencadeando a tristeza! E essa é uma grande porta também, para que o Diabo coloque em nossas mentes, que já não somos mais aceitos por Deus, que já não servimos mais pra nada!

Porém este não é o ponto que gostaria de trazer neste texto, mais sim as situações do passado, os pecados do passado, pelos quais vire e mexe estão sendo trazidas neste tribunal, onde Satanás se coloca como um promotor, tentando estabelecer uma condenação eterna, porém sabemos que ele não tem esse poder, porém no nosso dia a dia, nós se tornamos o juiz das nossas vidas, pois ele acusa como um promotor, e você bate o martelo!

E digo as acusações que sofremos, não são somente pelos pecados cometidos num passado longínquo, mais acusações de pecados que cometemos a 1, 2, 3, 15, 30 dias atrás! E porque isso, porque ele sabe que quanto mais tempo nós estivermos ruminando os nossos pecados, mais tempo você estará afastado primeiramente da busca de um relacionamento com Deus, por auto-comiseração que é tão grande, que você mesmo já decretou a sentença, e menos tempo para meditar e se santificar, pois você se acha indigno de ler a palavra, você se acha indigno de procurar andar de branco com Jesus.

Sim o pecado, deve gerar em nós uma tristeza, mais a tristeza que nos promova para perto do Senhor, ou seja, a tristeza gerada pelo Espírito de Deus no qual não te jogará mais para baixo, mais te levantará e te levará para mais perto do pai!

Primeiramente precisamos entender a obra salvifica de Cristo, isso Paulo nos apresenta em Efésios 6:10-18, ele nos recomenda a vestir a armadura de Deus, para estar firmes nos dias maus, e estar firmes contras as ciladas de satanás.

- Verdade, (Cristo disse que o Espírito da verdade nos levaria a toda verdade)

Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.João 16:13

- Fé, (entendermos que somos justificados mediante ela, que é um grande instrumento para salvação)

Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Rm 5:1

- Justiça (Reconciliação com Deus, apagada toda escrita de divida)

Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.Romanos 3:24

- Salvação (Somente em Cristo Jesus)

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.Efésios 2:8

- Palavra (que é a Espada do Espírito)

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.Hebreus 4:12

Compreendendo tais coisas, e logicamente o Senhor providenciando todas essas bênçãos para nós que somos Cristãos, estaremos firmes contra as ciladas, contra as acusações do Diabo!

E obviamente entendendo todos esses benefícios nos proporcionado por Cristo Jesus, logicamente entenderemos a Graça, e logicamente experimentaremos a bondade do Senhor, não se esquecendo que para o Cristão existem mais benefícios(ex. Batismo com o Espírito Santo), porém a obra do Senhor é completa, está tudo incluído no pacote, se é que posso dizer assim, mais entender a Graça do Senhor que nada mais é do que favor imerecido, quando entendermos isso estaremos firmes e confiantes diante do Senhor, logicamente não se utilizando da Graça, para dar maior ocasião ao Pecado (Rm 6:1-14), mais sim desfrutar da bondade do Senhor. Para endossar uma declaração do Senhor Jesus, e do Profeta Jeremias

Não vos inquieteis, pois, pelo dia amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.Mateus 6:34

As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; Lm 3:22
Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.Lm 3:23

Lembre-se os pecados de ontem são para o dia de ontem, desfrute da Graça do Senhor, de uma maneira Santa e irrepreensível, experimente e veja o quanto o Senhor é bom!

Provai, e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele confia.Salmos 34:8


AO SENHOR À ETERNIDADE PELO SECULOS DOS SECULOS!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Fruto do Espírito por William Hendriksen


O Fruto do Espírito

por

William Hendriksen

[...]

“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra tais coisas não existe lei” (Gálatas 5:22,23).

Talvez possamos dividir estes noves preciosos dons em três grupos, perfazendo três frutos e cada grupo. Se este for o correto — de forma alguma tem-se certeza! —, o primeiro grupo estaria referindo-se às qualidades espirituais mais básicas: amor, alegria, paz. O segundo grupo indicaria aquelas virtudes que se manifestam nas relações sociais. Pressupomos que considera os crentes em seus diversos contatos uns com os outros e com aqueles que não pertencem à comunidade cristã: longanimidade, benignidade, bondade. No último grupo, se bem que aqui há bastante espaço para divergência de opinião, o primeiro fruto poderia referir-se à relação dos crentes com Deus e sua vontade revelada na Bíblia: fidelidade ou lealdade. O segundo, presume-se, teria a ver com seu contato com os homens: mansidão. O último, à relação que cada crente tem consigo mesmo, ou seja, com seus próprios desejos e paixões: domínio próprio.

Encabeçando o primeiro grupo temos “o maior dos três maiores”, ou seja, o amor (1 Coríntios 13; Efésios 5:2; Colossenses 3:14). Para esta virtude, ver 5:6 e 5:13, acima. Não somente Paulo, mas também João estabelece prioridade a esta graça de abnegação (1 João 3:14; 4:8,19). E igualmente Pedro (1 Pedro 4:8). E assim eles estão seguindo o claro exemplo que lhes deu Cristo (João 13:1,34; 17:26). Apesar de que, assim como estas passagens o revelam, dificilmente seria legítimo limitar estritamente esta virtude tão básica ao “amor pelos irmãos”, todavia, por outro lado, no presente contexto (que fala de contendas, disputas e ciúmes, etc., ver também v.14) a referência pode muito bem ser especialmente a este afeto mútuo. Quando o amor se faz presente, a alegria não pode estar muito longe. Não nos disse o autor que o amor é o cumprimento da lei, e que fazer o que a lei de Deus manda traz deleite? (Salmos 119:16,24,35,47,70,174). Além disso, a verdade desta afirmação torna-se ainda mais clara quando se tem em mente que a capacidade para observar esta ordenança divina é um dom de Deus, sendo um elemento daquela maravilhosa salvação que em seu grande amor concedeu gratuitamente a seus filhos. Além disso, já que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8:28), faz-se evidente que os crentes podem alegrar-se mesmo diante de circunstâncias as mais dolorosas, assim como Paulo mesmo comprovou muitas vezes (Atos 27:35; 2 Coríntios 6:10 “entristecidos, mas sempre alegres”; 12:9; Filipenses 1:12,12; 4:11; 2 Timóteo 4:6-8). Além do mais, sua alegria não é a deste mundo, que é uma diversão superficial e que fracassa em satisfazer as necessidades mais profundas da alma, mas a de Deus é uma “alegria indizível cheia de glória” (1 Pedro 1:8), e um antecipação da alegria radiante que está reservada para os seguidores de Cristo. A paz também é um resultado natural do exercício do amor, pois “grande paz têm os que amam a tua lei” (Salmos 119:165; cf. 29:11 ; 37:11; 85:8). Esta paz é a serenidade de coração, a porção de todos quantos, tendo sido justificados mediante a fé (Romanos 5:1), aspiram ser instrumentos nas mãos de Deus para fazerem que outros também possam compartilhar desta tranqüilidade. Portanto, o possuidor da paz torna-se também um promotor da paz (Mateus 5:9). Portanto, aquele que está realmente consciente desta grandiosa dádiva da paz, a qual recebeu de Deus como resultado da amarga morte de Cristo na cruz, envidará todo esforço para “preservar — dentro da comunidade cristã — a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4:3).

A menção da paz é, por assim dizer, um liame natural entre o primeiro e o segundo grupo, porquanto esta virtude é com freqüência contrastada com as contendas entre os homens, e porque este segundo grupo descreve aquelas virtudes que os crentes revelam em seus contatos entre si e com os demais homens. O primeiro dos frutos do Espírito mencionados neste segundo grupo é a longanimidade. Ela caracteriza a pessoa que, em relação àqueles que a aborrecem, se lhe opõem ou a molestam, exerce a paciência. Ela se recusa a entregar-se à paixão ou às explosões de ira. A longanimidade ou paciência não é apenas um atributo humano, mas também divino, visto que o mesmo é atribuído a Deus (Romanos 2:4; 9:22) e a Cristo (1 Timóteo 1:16), bem como ao homem (2 Coríntios 6:6; Efésios 4:2; Colossenses 3:12,13; 2 Timóteo 4:2). Como atributo humano, é inspirado pela confiança de que Deus cumprirá suas promessas (2 Timóteo 4:2,8; Hebreus 6:12). Os gálatas necessitavam muitíssimo de que se pusesse ênfase nesta virtude, já que eles, como já vimos, provavelmente estavam se dividindo pelas contendas e por um espírito partidário. Por outro lado, a longanimidade é uma grande arma contra a hostilidade do mundo em sua atitude para com a igreja. De mãos dadas com essa virtude está a benignidade. Esta é suave e terna. Os primeiros cristãos se recomendavam por meio dela (2 Coríntios 6:6). Este fruto, tal como exercido pelos crentes, nada mais é do que um pálido reflexo da benignidade primordial manifestada por Deus (Romanos 2:4; cf. 11:22). Além disso, somos admoestados a tornar-nos como Ele neste aspecto (Mateus 5:43-48; Lucas 6:27-38). Os Evangelhos contêm numerosas ilustrações da benignidade que Cristo demonstrou para com os pecadores. Para mencionar apenas algumas, ver Marcos 10:13-16; Lucas 7:11-17, 36-50; 8:40-56; 13:10-117; 18:15-17; 23:34; João 8:1-11; 19:25-27. A virtude que completa este grupo é a bondade, que é a excelência moral e espiritual, em todos os aspectos, criada pelo Espírito. No presente contexto, visto que é mencionada depois da benignidade, se refere especialmente à generosidade de coração e de ações.

Finalmente, o apóstolo menciona as três graças que concluem todo o sumário. Primeiro está a fidelidade. O termo como usado no original com freqüência se traduz corretamente pela palavra fé. Todavia, uma vez que aqui aparece depois de “benignidade” e “bondade”, parece ser mais correto traduzir-se por “fidelidade”. O seu significado é lealdade, fidelidade. Uma vez que nesta mesma carta Paulo se queixa da falta de fidelidade para com ele, o que foi demonstrado através da conduta de muitos dos gálatas (4:16), percebemos que a menção desta virtude, aqui, é algo bastante apropriado. Contudo, em última análise não era tanto para com o próprio Paulo que havia falta de lealdade, e, sim, para com o evangelho — e, assim, para com Desu e sua Palavra —, e tinha estado faltando em proporção elevada, como fica evidenciado por 1:6-9; 3:1; 5:7. Conseqüentemente, com toda probabilidade o que Paulo está recomendando aqui, como um fruto do Espírito, é a fidelidade a Deus e à sua vontade. Contudo, isto não exclui, antes inclui, a lealdade para com os homens. Parece-nos apropriado interpretar aqui o próximo item, ou seja, a mansidão, como sendo a gentileza uns para com os outros e para com todos os homens, principalmente se levarmos em consideração o contexto precedente, o qual fala das dissensões em suas várias manifestações (ver vv. 20 e 21). Cf. 1 Coríntios 4:21. Esta virtude também nos faz lembrar de Cristo (Mateus 11:29; e 2 Coríntios 10:1). A mansidão é o oposto extremo da veemência, da violência e da agressividade ou explosões de ira. A última virtude que Paulo menciona, e por implicação recomenda, é o domínio próprio, que é uma relação que alguém mantém consigo mesmo. A pessoa que tem a bênção de possuir esta qualidade, possui “o poder de conter-se a si mesma”, que é o sentido do termo usado no original. O fato de terem sido mencionadas previamente, entre os vícios enumerados (v. 19), a imoralidade, a impureza e a indecência, revela que era apropriado mencionar o domínio próprio como a virtude oposta. Fica claro que aqui temos referência a muito mais coisas que simplesmente a sexo. Aqueles que realmente exercem esta virtude levam todo o pensamento à submissão e obediência a Cristo (2 Coríntios 10:5).

E prossegue: contra tais coisas não existe lei. Uma vez que Paulo aqui completou uma lista de virtudes, que são coisas, não pessoas, é natural interpretar suas palavras como significando: “contra tais coisas — tais virtudes — não existe lei”. A gramática não proíbe tal construção. Também é óbvio que, à semelhança dos vícios enumerados, esta lista de virtude é apenas representativa. Não podemos mesmo afirmar que todas as excelências cristãs estão incluídas na lista. Portanto, Paulo diz: “contra tais... Ao dizer que contra tais coisas não existe lei, ele está encorajando a cada crente a manifestar estas qualidades, a fim de que, assim procedendo, os vícios possam ser aniquilados”.

O incentivo de que precisamos para exibir estes excelentes traços do caráter foi fornecido por Cristo, pois é devido à gratidão que os crentes sentem para com Cristo que os usam para adornar sua conduta. O exemplo, também, em conexão com todos eles, foi dado por ele. E as próprias virtudes, associadas ao poder para exercê-las, são doadas pelo seu Espírito.

Embora Paulo tenha qualificado as virtudes enumeradas de “o fruto do Espírito”, agora ele desvia a ênfase do Espírito para Cristo. Se ele pôde fazer isso tão prontamente, é devido ao fato de que quando o Espírito ocupa o coração, Cristo também o faz (Efésios 3:16,17). Cristo e o Espírito não podem ser separados entre si. Cristo mesmo habita a vida interior dos crentes “no Espírito” (Romanos 8:9,10). O Espírito não foi dado por Cristo? (João 15:26; 2 Coríntios 3:17). A razão para esta mudança de ênfase é que o apóstolo lembrará os gálatas de que eles crucificaram a carne. Isso, naturalmente, chama a atenção imediatamente para Cristo e sua cruz. E assim Paulo prossegue [...]



Fonte: Extraído do excelente comentário de Gálatas de William Hendriksen, publicado pela Editora Cultura Cristã, páginas 321-325.

Extraido de www.monergismo.com

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Doutrina da Graça na Vida Prática: Adversidade por Terry Johnson


A Doutrina da Graça na Vida Prática: Adversidade

por

Terry Johnson


Por favor, leia Romanos 8.26-39; Gênesis 50.15-21

Em 1858, um jovem missionário presbiteriano talentoso chamado John G. Paton, navegou com sua esposa e seu pequeno filho para as ilhas New Hebrides no Pacífico Sul para começar um trabalho missionário entre os ilhéus. Após alguns meses de sua chegada, sua esposa e seu filho morreram, deixando-o sozinho no trabalho.

Em agosto de 1876, um jovem teólogo talentoso chamado Benjamin Breckinridge Warfield e sua esposa, estavam em lua-de-mel na Alemanha. Durante a visita aos pontos turísticos da região da Floresta Negra, eles foram pegos de surpresa por uma terrível tempestade, e algo aconteceu com sua esposa que nunca foi completamente explicado, submetendo-a a uma invalidez para o resto da vida.

Na década de 1950, a congregação da Igreja Presbiteriana Independente de Savana chamou um jovem pregador para tomar as rédeas de uma igreja muito dividida. Ele veio com sua esposa e seus cinco filhos, o mais novo tinha apenas três anos. Depois de um ano e meio, desenvolveu um tumor no cérebro, e após dois anos do início de seu trabalho em Savana, o Rev. Van Puffelen estava morto.

Como você explica estas coisas? Talvez um tanto frustrante. Como você explica as respostas destes indivíduos? John G. Paton permaneceu no campo e teve uma grande colheita, e mais tarde disse:

Eu construí um túmulo cercado com blocos de coral, e cobri o topo com lindos corais brancos, pequenos cascalhos quebrados; e aquele lugar se tornou para mim, meu mais sagrado e freqüentado santuário durante todos os meses e anos que se seguiram, enquanto eu trabalhava na salvação daqueles ilhéus selvagens, em meio a dificuldades, perigos e mortes. Quando esta ilha se voltar para o Senhor, e for ganha para Cristo, nos dias seguintes os homens encontrarão a memória daquele lugar ainda vívida – onde, com incessantes orações e lágrimas, eu reivindiquei aquela terra para Deus, na qual eu “enterrei minha morta” com fé e esperança. [1]

Warfield cuidou de sua esposa durante os quarenta anos em que permaneceram juntos, humilde e submisso, sem lamúrias, sem pena de si mesmo, sem justificar a necessidade de auto-satisfação, cumprindo seus votos matrimoniais, cumprindo seu dever para com sua esposa.

A “Sra. Van” , como era conhecida em Savana, gentil e dócil por fora, forte como cravos por dentro, começou a lecionar no Externato Presbiteriano Independente e educou seus cinco filhos com um tremendo sacrifício próprio, e sem lamúrias.

Qual é a explicação em cada uma destas situações? A explicação é que cada um deles cria na soberania de Deus. Todos entenderam a justiça de Deus, sua misericórdia, seu governo absoluto, e cada um recebeu suas circunstâncias como de Sua mão para seu bem e se submeteram a elas.

Ainda, como você explica a adversidade? Como você lida com o sofrimento que está no mundo? Admita que leva tempo para que nossas emoções alcancem nossas mentes, que não há respostas “fáceis” , e que quando nós perguntamos “por que” , não devemos fazer de forma tão simplista ou como uma questão de fatalidade; porém temos uma explicação para o sofrimento, a única explicação para o sofrimento que opera e abre caminho para o conforto num mundo de dor.


O Problema do Prazer

Do nosso ponto de vista, muito da discussão sobre o “problema da dor” e sofrimento tem começado do jeito errado. Como vimos em nossa consideração sobre predestinação, há uma tendência por começar com a suposição da inocência humana. A adversidade então, é vista como uma intromissão imparcial ou injusta na vida de quem não a merece. Isso está implícito em quase todas as discussões sobre o assunto. Portanto, nós freqüentemente questionamos: “Por que Deus tem permitido que isso aconteça a uma família tão pura (e não merecedora)?”.

O lugar bíblico para se começar qualquer consideração sobre o sofrimento, não é a inocência, mas a culpa. No começo da Bíblia está um relato do que é chamado a “Queda do Homem” . Ele está lá para lembrar-nos que vivemos em um mundo “caído” , um mundo em desordem e sob a maldição de Deus. A resposta de Deus ao pecado de Adão e os pecados de sua descendência é uma condenação. Deus prometeu a morte “no dia em que dela comeres” . Entretanto, num sentido final, a morte foi adiada. Enquanto isso, a vida consiste em múltiplos mini-julgamentos que nos visitam por causa do pecado de Adão e de nossos próprios pecados, como pré-estréias do julgamento final. Estes mini-julgamentos, porque são desprovidos da morte eterna do inferno, são, em efeito, graciosos estágios de execução.

O que estamos dizendo é que cada momento que um de nós vive do lado de cá do inferno é um problema. Como é que um Deus justo e verdadeiro pode tolerar o mal e deixá-lo continuar existindo? Como ele pode atrasar seu aviso de que “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4)? O problema não é a dor, mas o prazer. Uma justiça severa lançará cada um de nós no inferno. Qualquer coisa menor do que isso – enfermidade, injúria, miséria, fome, ou sofrimento profundo – é misericórdia.

Considere a resposta de Jesus à questão de seus discípulos sobre os infelizes galileus que haviam sido massacrados por Pilatos (Lc 13). Eles queriam saber se “estes galileus eram mais pecadores que os outros porque sofreram este destino” . Esta questão é antiga. Aqueles que sofrem, sofrem porque são mais pecadores que as outras pessoas? Podemos dizer que o sofrimento é diretamente proporcional ao pecado? A resposta popular é dizer “não” , e ela está correta. Podemos corretamente citar Jó como um exemplo de um homem que não sofreu por seu pecado pessoal. Jesus, de fato, diz: “Não eram, eu vo-lo afirmo…” Jesus concorda com a resposta popular ao dizer que estas pessoas não eram necessariamente mais merecedoras de sofrimento que outras. Elas não morreram porque eram mais pecadoras que o resto. Nós esperávamos que ele continuasse a falar sobre como o sofrimento é imerecido. Muitas vezes, nós diríamos, os inocentes sofrem neste mundo. Freqüentemente, nós dizemos, é o bom que é injuriado e ofendido. Mas, surpresa, isso não é o que ele diz afinal. Em vez de dizer que alguns são sofredores inocentes, ele diz que todos merecem sofrer deste modo. Ele avisa que “se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” . Em outras palavras, não é que eles sejam piores do que os outros, mas é o que cada pecador merece, e terá, a menos que se arrependa. Jesus não se concentra na tragédia que caiu sobre alguns, mas na graça pela qual a maioria é poupada.

Da mesma maneira, Jesus continuou a falar nos dezoito sobre quem a “torre de Siloé caiu e matou” . Ele pergunta: “(eles) eram mais culpados que os outros habitantes de Jerusalém?” Podemos deduzir, a partir da quantidade de sofrimento que as pessoas suportam, quem é justo e quem é pecador? Não, ele diz. Mas, novamente, isso significa que eles poderiam não ser merecedores? Não. Eles têm o que todos merecem, mas alguns são poupados.

Não eram, eu vo-lo afirmo; mas, se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis (Lc 13.5).

Assim, o problema do sofrimento, como Jesus o interpreta, não é afinal um problema de dor. A dor pode ser explicada facilmente. Vivemos em um mundo caído e sob julgamento. Todos os piqueniques da vida têm suas formigas. Em nossa lua-de-mel, Emily e eu fomos um dia à praia. Quando chegamos, começou a chover. Não sendo a teóloga da família, ela perguntou: “por que Deus fez isso conosco?” Minha resposta sensível foi: “por que não choveu outro dia? Por que ele permitiu que viéssemos aqui afinal?” Ela não estava para brincadeira. É claro, há sofrimento. O extraordinário não é que exista dor, mas que exista prazer. Uma vez que se entenda a doutrina da queda e da depravação do homem, o problema filosófico não está no explicar o porquê Deus permite o sofrimento, mas no porquê ele mostra graça e misericórdia. Qualquer dor e sofrimento menor que as chamas do fogo eterno no inferno, é um adiamento misericordioso de Deus. Eu posso entender porque sofremos. Eu não posso entender porque não sofremos mais.


Soberania e Dor

Em capítulos anteriores, vimos que a soberania de Deus se estende sobre cada molécula existente. Ele decretou e planejou “tudo quanto acontece” . Então, não pense por um só momento que sua dor está excluída. Quando eu estava no seminário, um jovem cristão muito promissor, um estudante talentoso da Cal Tech [2], com uma mente brilhante, estava se preparando para uma missão de campo com os Tradutores Wycliffe da Bíblia. Ele caiu, em uma viagem a pé e morreu tragicamente. Um teólogo evangélico mundialmente famoso disse em seu funeral: “Esta não era a vontade de Deus” . Em um funeral em Savana, poucos anos atrás, uma declaração similar foi feita no velório de uma jovem mãe que morreu repentinamente: “Deus não queria que isso acontecesse”. Esta posição também é tomada num livro muito popular, Why Bad Things Happen to Good People (Porque Coisas Ruins Acontecem a Pessoas Boas). O autor perdeu sua filha adolescente para a leucemia. Ele lutou tentando explicar como Deus poderia ter permitido que isso acontecesse. Note seu modo de pensar. Existem pessoas “boas” (leia “inocentes” ) que não merecem que coisas “más” aconteçam a elas. A resposta que ele deu foi que Deus é bom, mas não há nada que ele possa fazer acerca do sofrimento. Ele não pode interferir. Suas mãos estão atadas. Ele não é culpado. Ele não pode ser acusado. Podemos estar certos de que ele ainda nos ama, pois não foi ele quem fez estas coisas horríveis acontecerem conosco.

O que podemos dizer sobre isso? Em nosso conceito, esta explicação não oferece qualquer consolação e, de fato, é horripilante. Por quê? Considere o seguinte.

Primeiro, se existe um Deus, o que acontece deve ser sua vontade . Se acontece alguma coisa que não é de sua vontade, ele não é Deus, e nós temos um problema. Se existem moléculas perambulando por aí, fazendo o que não foi ordenado por Deus, então ele tem um concorrente igual a ele, portanto não é Deus como a Bíblia o descreve. Para Deus ser Deus, ele deve ser soberano. Para ele ser soberano em tudo, ele deve ser o soberano sobre tudo .

Deixe-me ver se consigo esclarecer o que eu quero dizer. Todos os que crêem em Deus, crêem que ele pode prever todas as coisas. Uma vez que você deixe de crer na presciência, você realmente deixa de crer em Deus. O que ele prevê, certamente acontecerá. Então quando Deus prevê algo e decide permitir que aconteça, ele o faz porque isso convém a seus propósitos. Isso serve a seus planos. A alternativa é dizer que ele prevê coisas e as permite até mesmo que elas não combinem com seus propósitos, o que é claramente ilógico e absurdo. Isso não significa que ele “gosta” do que prevê, ele só permite que aconteça porque encontra algo positivo e alguma razão nisto. O bom Deus permite acontecer o que acontece porque convém a seus propósitos; e seus propósitos são bons.

Às vezes as pessoas tentam evitar as implicações disto apelando para a previsão, dizendo que Deus meramente “prevê” todas as coisas, ele não as fará realmente. Mas conforme pudemos ver, esta distinção não se sustenta. O que um Deus onipotente prevê e permite, ele quer e ordena.

Segundo, ou os eventos têm um significado dado por Deus, ou não têm sentido algum . Na tentativa de manter Deus “fora da armadilha” , as pessoas acabam deixando suas tragédias sem sentido, transformando-as em algo realmente trágico. Você deve reconhecer que não pode haver dois caminhos. Ou Deus está nele, ou ele não está. Se ele não está, então é o diabo, o mal, a “sorte”, o destino, ou o acaso.

Quando eu era pastor dos jovens em Miami, nós presenciamos duas mortes trágicas de pais de adolescentes. Um foi o pai de minha esposa Emily, que sofreu um ataque do coração quando ela tinha apenas dezesseis anos. O outro foi do pai de uma garota de dezesseis anos também, mas as circunstâncias foram diferentes. Enquanto que o pai de Emily morreu de repente, este homem, o Dr. John Richardson, filho do Reverendo J.R. Richardson, morreu lentamente durante um período de quase dois anos. Os dias finais foram diferentes de qualquer coisa que eu já havia visto ou que veria. Ele morreu em casa, rodeado por sua família. Seus últimos momentos foram passados com sua filha mais nova aconchegada a ele de um lado, a outra filha nos seus pés, sua esposa ao seu outro lado, seus filhos sentados junto a sua cama. Esta foi a morte mais triste e mais doce que eu já presenciei. Algumas semanas depois, a filha mais nova veio a mim e perguntou: “Por que Deus permitiu isso?” Minha resposta foi gentilmente dizer: “Ah, ele permitiu, mas teve boas razões” , e continuei, “ e nós nos agarramos a isso porque a única alternativa é dizer que Deus não o permitiu, e não há razão e é apenas uma tragédia sem propósito” . O que você deve fazer agora? Confiar nele! Diga que ele não é o responsável e você perde a oportunidade de confiar nele.

“Deus é grande e Deus é bom”. Esta foi a primeira oração que eu aprendi. Ela também expressa o problema do sofrimento. Por que um Deus grande permite o mal quando ele poderia impedi-lo? Por que um Deus bom permite o mal quando o odeia? Negue qualquer lado da equação e você resolverá o problema do mal: Deus é bom, mas não é grande; ele gostaria de impedir o mal, mas ele é fraco. Deus é grande, mas não é bom; ele não quer impedir o mal porque ele se deleita nele.

Desde Agostinho, os cristãos têm dito que Deus permite o mal para um bem maior. O paradigma é encontrado na crucificação. Quando o homem realizou este grande mal, Deus produziu a partir dele o maior bem. Porém, a crucificação foi realizada pelo “determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23). Deus estava nela; ele a tinha ordenado. Da mesma maneira, ele está em nosso sofrimento. Por ele estar no sofrimento, este tem um propósito, tem um sentido.


Cristo e a Dor

Finalmente, vamos às respostas encontradas em Romanos 8. A maravilha de nossa adoção e conseqüentemente glorificação, leva Paulo a falar do caminho para a glória que é o caminho do sofrimento. Ele diz que nós somos “ co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados ” (8.17). Novamente, ele une o sofrimento e a glória dizendo: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (8.18). Ele fala de nossos “gemidos” e os contrasta com “nossa adoção de filhos, a redenção do nosso corpo” (8.23). Ele estimula à necessidade de “esperança” e “perseverança” (8.24,25). Ele promete a ajuda do Espírito quando oramos “ com gemidos inexprimíveis” (v.26). Então vem a jóia da coroa das promessas bíblicas. “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Paulo regozija-se num Deus que está em todas as coisas, fazendo-as trabalhar para o bem daqueles que o amam. E precisamente no caso de que você pudesse parar e duvidar se você ama Deus o suficiente ou não, ele acrescenta: “daqueles que são chamados segundo o seu propósito” . Machen disse sobre estes versos:

… que pequeno conforto existiria nessas palavras se o versículo parasse ali – se nos tivesse sido dito simplesmente que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, e então seríamos levados a acender aquele amor de Deus em nossos corações frios e mortos. Mas, graças a Deus, o versículo não termina ali. O versículo não diz apenas, “ sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus ” . Não, ele diz: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”. Aí está, meus amigos, o verdadeiro motivo de todo o nosso conforto – não em nosso amor, nem em nossa fé, ou em qualquer coisa que está em nós, mas neste misterioso e eterno conselho de Deus do qual vem toda a fé, todo o amor, tudo o que temos, somos e podemos ser neste mundo e no mundo que está por vir. [3]

Aqueles que amam a Deus são aqueles que foram chamados. Os chamados são aqueles que foram conhecidos de antemão (o que significa amados de antemão) e predestinados. A “corrente de ouro” está exposta no verso 30: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30). Àqueles nos quais Deus colocou seu amor – àqueles que foram chamados eficazmente a Cristo pelo evangelho, que foram justificados e glorificados (o tempo passado indica que Paulo até mesmo vê isso como um fato concluído) – é prometido que tudo tem um bom propósito para eles. O próprio Deus o garante.

Quando eu tinha três anos, meus pais distraidamente deixaram minha irmã e eu no carro da família depois que voltamos da Igreja num domingo. Nós brincávamos e eu soltei o freio de mão. O carro começou a rolar pela rampa da garagem. Nós nos apavoramos. Minha irmã pulou para fora do carro. Ela tinha cinco anos – podia fazer aquilo. Eu caí debaixo da roda dianteira, e nossa perua Plymouth ano 56 passou por cima das minhas costas, pescoço e cabeça.

Quando eu tinha quinze anos, eu estava praticando com o time de futebol do colégio, que incluía três futuras estrelas do futebol universitário, entre eles Vince Feragammo. Certa tarde, eu corri um “ reinício ” [4] padrão, peguei a bola, contornei o campo, tentei evitar meu defensor; nesta tentativa de evitá-lo, subitamente senti uma dor aguda na minha coxa. Um barulho tão forte como o de um galho de árvore quebrando pôde ser ouvido em todo o campo enquanto eu caía, minha perna torceu debaixo de mim, meu fêmur estava caprichosamente quebrado.

Por quê? Eu não sei. Eu não tenho que saber. Tudo o que eu sei é que Deus estava nesse acontecimento, e o estava trabalhando para o bem.

Alguns de vocês já sofreram coisas muito piores que isso. Alguns de vocês perderam filhos e netos em acidentes e doenças. Outros foram assolados pela morte de seus maridos e esposas. Amigos, parentes, outros amados têm sofrido com circunstâncias trágicas. Você tem gritado. “Ah não, isso não – tudo menos isso! Senhor, por quê? Por que o Senhor fez isso?” Talvez você tenha cultivado amargura. Você tem estado ressentido com Deus desde então. Você está desiludido e confuso. Tenha isso por certo – em Cristo, embora o diabo, o mundo e os inimigos tenham planejado sua destruição, Deus estava trabalhando todas as coisas para o bem.

Considere a vida de José. Que adversidades ele sofreu! Pense em seu coração quebrado por causa da total rejeição por parte de seus irmãos, que estavam prontos para matá-lo de imediato. Pense na dor de ter sido vendido como escravo, sendo obrigado a deixar sua família, e não vê-la por décadas. Mesmo no Egito ele teve que lidar com a falsa acusação de tentativa de estupro, armada pela esposa de Potifar, o qual o lançou na cadeia. Ele tinha muitos motivos para a amargura. Pense em tudo o que Deus permitiu que acontecesse. Sua infância lhe foi tirada, foi tirado de sua terra natal e de sua família, bem como seu bom nome, por que ele não deveria amaldiçoar a Deus? Mas o que ele diz? Ele vê a mão soberana de Deus em tudo. Primeiro, ele diz a seus irmãos: “Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa, e como governador em toda a terra do Egito” (Gn 45.8). E numa segunda ocasião ele diz: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20). Leia de novo: “Deus o tornou em bem”, ele diz.

Algumas vezes, até mesmo muitas vezes, não saberemos que bem Deus estará trazendo da adversidade. Este não é o ponto crucial. O ponto crucial é saber que Deus é bom e que ele quer isso! Quando você perdeu seu amado, ele o quis. Quando você foi afligido por doenças, ele o quis. Quando você foi atingido por reversões financeiras, ele o quis. Ele promete transformar isso em bem. Agora você precisa confiar nele.

Crer na soberania de Deus tem algum impacto prático sobre a vida? Eu espero que você tenha começado a entender que estas doutrinas são vitais. Somente quando entendemos que Deus ordenou nosso sofrimento, podemos começar a entender o sentido dele. Somente então, estaremos certos de que ele tem um propósito. Quando as tragédias vierem, quando as adversidades atacarem, não seremos abalados. Sim, nós choraremos. Sim, nós sofreremos. Mas continuaremos andando confiantes, sabendo que Deus está no seu trono, que estamos em suas mãos, que nossas circunstâncias são seus feitos, e que ele trabalha este mal para o nosso bem.


Notas:

1. Iain Murray, The Puritan Hope , Banner of Truth, pp.179, 180.

2. NT – Cal Tech refere-se a California Technology School.

3. J. Gresham Machen, The Christian View of Man , Banner of Truth, p.68.

4. NT – Do inglês “quick-out”, refere-se ao início ou reinício do jogo no futebol americano.



Fonte: Extraído de A Doutrina da Graça na Vida Prática, Terry Johnson, Ed. Cultura Cristã, 2001. São Paulo, SP. p.45-58.




http://www.monergismo.com/

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Armadura de Deus por Vincent Cheung


A Armadura de Deus

por

Vincent Cheung

CONTEÚDO

PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 2003
1. O PODER DE DEUS
2. O ENGANO DE SATANÁS
3. A FIRMEZA DA FÉ
4. O CINTO DA VERDADE
5. A COURAÇA DA JUSTIÇA
6. O EVANGELHO DE PAZ
7. O CAPACETE DA SALVAÇÃO
8. A ESPADA DO ESPÍRITO

PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 2003

Este livro é uma adaptação de vários sermões que preguei na rádio. A série tinha o título, A Armadura de Deus, e consistiu de uma exposição da passagem correspondente em Efésios 6. Contrariamente ao que algumas pessoas parecem pensar, a armadura que Deus nos deu não é mística em sua natureza e poder. Antes, cada parte da armadura se refere ao conteúdo doutrinário de uma área da fé cristã e sua realidade nas nossas vidas. Conseqüentemente, esta série explora estas áreas das verdades bíblicas que constituem nossas armas defensivas e ofensivas.

Eu fiz muitas mudanças significantes nestes sermões, enquanto preparando-os para publicação. Embora eu os tenha feito bem menores do que o original, o conteúdo foi melhorado, de forma que na presente forma, eles serão mais proveitosos ao leitor.

Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder. Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo, pois a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra governos e autoridades, contra os poderes deste mundo de trevas e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais.

Portanto, vistam toda a armadura de Deus, para que possam resistir quando o dia do mau chegar e permanecer firmes, depois de terem feito tudo. Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, com a couraça da justiça no lugar, e tendo os pés calçados com a prontidão que vem do evangelho da paz. Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno. Tomem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.

Orem no Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica; tendo isso em mente, estejam atentos e perseverem em oração por todos os santos. Orem também por mim, para que, quando eu falar, seja-me dada a mensagem a fim de que, destemidamente, torne conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador preso em correntes. Orem para que, permanecendo nele, eu fale com coragem, como me cumpre fazer.

Efésios 6:10-20

1. O PODER DE DEUS

Na carta de Paulo aos Efésios, ele discute vários assuntos tais como soberania divina na eleição, poder divino na redenção, nosso lugar de privilégio em Cristo, a unidade dos cristãos em Cristo, maturidade espiritual, conduta santa, pais e filhos, casamento, a igreja, e assim por diante. Ele conclui a carta dizendo aos seus leitores “vistam toda a armadura de Deus”, e começa a listar as partes que constituem esta armadura. A toda armadura de Deus é deveras completa, incluindo tudo o que os cristãos necessitam para “ficar firmes contra as ciladas do Diabo”.

Começaremos nossa exposição desta passagem bíblica sobre a armadura de Deus a partir de Efésios 6:10, onde Paulo escreve, “Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder”. O apóstolo admoesta o leitor a se “fortalecer”, mas ele diz para fazer isto “no Senhor”. Os cristãos derivam sua força de Deus –– somos fortes somente pelo Seu “forte poder”. Logo no início da carta, Paulo indica que o mesmo poder que Deus exercitou na ressurreição de Cristo está sendo exercido em benefício daqueles que estão em Cristo:

“Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou, as riquezas da gloriosa herança dele nos santos e a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos. Esse poder é conforme a atuação da sua poderosa força, que ele exerceu em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez assentar-se à sua direita, nas regiões celestiais” (Efésios 1:18-20).

Deus já está aplicando este grande poder em nós, assim, não precisamos pedir para que o mesmo se torne disponível; antes, Seu poder será manifesto em nossas vidas quando nossas mentes forem “iluminadas”, de forma que possamos conhecer “a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos...que ele exerceu em Cristo” em Sua ressurreição e entronização. É por este entendimento teológico que devemos estudar e orar.

O poder que Deus fez disponível para nós é mais do que suficiente. De fato, é através do “seu poder que atua em nós” que Ele fará “infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos” (Efésios 3:20). Podemos ter confiança para enfrentar a pressão e as circunstâncias adversas, sabendo que Deus colocou em nossas vidas um poder tão forte que ressuscitou Jesus dos mortos. Este poder está disponível a toda pessoa que está em Cristo. Esta informação pode surpreender alguns cristãos, especialmente aqueles cujas vidas são caracterizadas por derrota e aridez. Embora o poder de Deus esteja disponível a todo cristão, ele permanece dormente em alguns deles por causa da falta de conhecimento e entendimento. O apóstolo procura remediar isto orando para que Deus ilumine as mentes dos seus leitores, de forma que eles possam perceber o que já foi feito disponível a eles em Cristo.

Assim, quando Paulo diz “fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder”, ele não está sugerindo que nós faremos isto pedindo poder adicional de Deus, mas entendendo que Ele já nos deu, em Cristo. Quando um cristão percebe que o poder de Deus tem sido aplicado a ele através de Cristo, ele cessa de temer as outras pessoas e as circunstâncias negativas. Ele se lembra que a Escritura diz, “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31).

Paulo diz que Deus escolheu “fazer conhecido entre os gentios a gloriosa riqueza deste mistério, que é Cristo em vocês, a esperança de glória” (Colossenses 1:27). João explica, “Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus” (1 João 4:15). A Bíblia nos diz que somos “santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em [nós]” (1 Coríntios 3:16). João diz em 1 João 4:4, “Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram”. Por “os”, ele está se referindo aos espíritos que inspiram “falsos profetas”, até mesmo o “espírito do anticristo” (v. 3). Nós os vencemos porque “aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo” (v. 4). Nós podemos vencer o mundo quando cremos e dependemos do poder de Deus. Os escolhidos de Deus são destinados à vitória (Romanos 8:37). Afinal de contas, “Quem é que vence o mundo? Somente aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus” (1 João 5:5).

2. O ENGANO DE SATANÁS

O próximo verso em nossa passagem diz, “Vistam toda a armadura de Deus, para poderem ficar firmes contra as ciladas do diabo” (v. 11). A palavra traduzida por “ciladas” aqui (grego: methodeia) refere-se à trapaça ou engano –– engano é o “método” pelo qual Satanás procura derrotar o crente. É vestindo “toda a armadura de Deus” que seremos capazes de “ficar firmes contra” o diabo.

Pedro adverte que o diabo deseja nos atacar: “Estejam alertas e vigiem. O diabo, o inimigo de vocês, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem possa devorar. Resistam-lhe, permanecendo firmes na fé, sabendo que os irmãos que vocês têm em todo o mundo estão passando pelos mesmos sofrimentos” (1 Pedro 5:8-9). Ele está nos dizendo para ficarmos acordados –– “estejam alertas e vigiem”. Há um inimigo que deseja nos destruir, e ele é o diabo. Embora ele esteja “rugindo e procurando a quem possa devorar”, nós podemos “resisti-lo” e permanecer inamovíveis em nossa posição de fé. O apóstolo João nos assegura, “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não está no pecado; aquele que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge” (1 João 5:18).

Deus nos instrui a estarmos preparados. O engano é a arma de Satanás. Ele mentirá para nós, e tentará nos bombardear com pensamentos e argumentos anti-bíblicos, e aqueles que falham em “escapar da armadilha do diabo” são “aprisionados para fazerem a sua vontade” (2 Timóteo 2:26). Por outro lado, Jesus diz, “Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8:31-32).

Somente os cristãos são verdadeiramente livres. O resto do mundo “está sob o controle do Maligno” (1 João 5:19). Este é o porquê somente os cristãos possuem e concordam com a verdade, e através das lentes da Escritura, eles são capazes de ver realmente como ela é. Com respeito aos não-cristãos, Paulo diz, “O deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Coríntios 4:4). Todos os não-cristãos estão cegos em suas mentes, e dessa forma, negam a realidade. A mente é onde a batalha é travada. Mesmo após você se tornar um cristão, o diabo continuará a atacar a sua mente com mentiras, e a tentar minar sua fé em Cristo.

Jesus nos providencia alguns discernimentos valiosos sobre a natureza do diabo quando Ele diz aos fariseus, “Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando ele mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira” (João 8:44). Quando o diabo diz uma mentira, ele está fazendo algo que é próprio de sua natureza. Mentir é natural ao diabo. Assim, ele ataca o povo de Deus espalhando mentiras que afastam as pessoas de Deus.

Isto significa que a natureza do nosso conflito espiritual contra o diabo é intelectual. Como Paulo diz: “As armas com as quais lutamos não são armas do mundo; ao contrário, elas têm poder divino para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10:4-5). As armas que Deus nos deu “têm poder divino para destruir fortalezas ”, as quais são, na realidade, “argumentos” que são “contra o conhecimento de Deus”. Assim, lutamos para “levarmos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo”. É assim que a batalha espiritual é feita, e é para este propósito que Deus nos deu “toda a armadura de Deus”.

Continuando em Efésios 6:12, Paulo escreve, “Pois a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra governos e autoridades, contra os poderes deste mundo de trevas e contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais”. A nossa luta não é natural, mas espiritual, e como estamos envolvidos numa batalha espiritual significa que nosso conflito tem a ver com intelecto, com idéias e argumentos.

Dizer que nossa luta é uma luta espiritual não faz dela uma luta mística –– uma que consiste de espadas invisíveis, escudos e setas. Ao dizer que temos armas com “poder divino”, Paulo se refere à capacidade dada por Deus para “destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levarmos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo”. Não pensemos, como alguns tendem a fazer, que por “espiritual” nos referimos a algo místico ao invés de intelectual, pois é a mente e o intelecto que trata com coisas espirituais.

Utilizando o poder de Deus através de um entendimento intelectual da verdade teológica, podemos ficar confiantes do resultado. Mencionamos no capítulo anterior que Deus está aplicando a você o mesmo poder que ressuscitou Jesus dos mortos. É este mesmo poder que energiza nosso trabalho cristão: “Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo. Para isso eu me esforço, lutando conforme toda a sua força, que atua poderosamente em mim” (Colossenses 1:28-29). Satanás não pode resistir a este poder. Este é o porquê quando “vestimos toda a armadura de Deus”, seremos capazes de “ficar firmes contra as ciladas do diabo”. Este é o porquê também o apóstolo Tiago pôde assegurar aos seus leitores, dizendo, “Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês” (Tiago 4:7).

Certamente, ao discutir a obra do diabo, devemos guardar em mente que mesmo o diabo está debaixo do controle soberano de Deus, e que ele não pode fazer nada que não tenha sido ativamente decretado por Deus. Assim, até mesmo o diabo é um meio pelo qual Deus pode realizar os Seus próprios propósitos. A qualquer momento, Deus pode aniquilá-lo; contudo, Deus ordenou que deveríamos resistir ao diabo pelo conhecimento da Escritura e pela energia do Espírito –– para a glória de Deus e para a nossa santificação.

3. A FIRMEZA DA FÉ

O verso 11 nos instrui a “vestirmos toda a armadura de Deus”, de forma que devemos tomar cada peça da armadura que Deus nos deu, e não negligenciar nenhuma. Tendo feito isto, devemos estar preparados para “ficarmos firmes contra as ciladas do diabo”. Então, o verso 12 diz, “a nossa luta não é contra carne e sangue”, mas “ contra as forças espirituais do mal”. Devemos reconhecer a realidade dos poderes demoníacos, que os espíritos do mal são reais. Debaixo da vontade soberana de Deus, estes seres exercem poderes enganadores para cegar as pessoas da verdade da palavra de Deus. É através da graça soberana de Deus que somos iluminados com respeito à verdade e capacitados a assentir a ela. Paulo explica, “Ninguém pode dizer: 'Jesus é Senhor', a não ser pelo Espírito Santo” (1 Corinthians 12:3). Deus remove nossa cegueira espiritual e transmite suas verdades às nossas mentes através da Escritura.

Jesus ora, “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17). Não somente nossa iluminação inicial com respeito às coisas de Deus vem da Escritura, mas todo o nosso crescimento espiritual subseqüente vem também através da Escritura, e esta é a base de nossa santificação progressiva. Em conexão com isto, Paulo escreve, “transformem-se pela renovação da sua mente” (Romanos 12:2). Nós somos “renovados em conhecimento” (Colossenses 3:10) –– não por experiências místicas, nem mesmo primordialmente pela oração. É somente quando entendemos e retemos as verdades bíblicas em nossas mentes que vivemos nossas vidas em obediência a Deus para resistir com sucesso ao diabo, quando ele vem contra nós.

Paulo continua no verso 13, “Portanto, vistam toda a armadura de Deus, para que possam resistir quando o dia do mau chegar e permanecer firmes, depois de terem feito tudo”. Não somente a armadura de Deus nos protege das “ciladas do diabo”, mas também nos capacita a ficarmos firmes “quando o dia do mau chegar”. Isto é, quando cada peça da armadura que Deus nos providenciou está intacta, então podemos enfrentar o inimigo no combate corpo-a-corpo com confiança.

A Bíblia diz que alguns “foram cortados devido à incredulidade”, mas nós “permanecemos pela fé” (Romanos 11:20). É “pela fé” que somos capazes de “permanecermos firmes” (2 Coríntios 1:24). O caminho do cristão, desde o início, é um caminho de fé. Nós somos “justificados pela fé”, e, portanto, “temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes” (Romanos 5:1-2). Nós fomos justificados por Deus pela fé. Mas nossa fé não termina aqui, e Paulo diz que seríamos tolos em pensar de outra maneira: “Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio?...Aquele que lhes dá o seu Espírito e opera milagres entre vocês realiza essas coisas pela prática da Lei ou pela fé com a qual receberam a palavra?” (Gálatas 3:3,5). Não somente fomos justificados pela fé, mas através da fé –– uma fé que Deus soberanamente nos deu –– o poder de Deus continua a operar em nossas vidas.

4. O CINTO DA VERDADE

Sumarizemos o que temos discutido até aqui. Paulo diz em Efésios 6:10, “Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder”. Deus está aplicando a nós o Seu divino poder, e devemos buscar adquirir um entendimento intelectual deste fato, de forma que este poder possa se tornar eficaz em nossas vidas. Paulo então nos diz para “vestirmos toda a armadura de Deus”, através da qual seremos capazes de “ ficar firmes contra as ciladas do diabo” (v. 11). Embora o diabo seja hábil no engano, Deus nos deus armas com “poder divino” (2 Coríntios 10:4), de forma que podemos destruir os argumentos e pensamentos anti-cristãos que Satanás usa para nos atacar. Nossa luta “não é contra carne e sangue”, mas “contra as forças espirituais do mal” (v. 12). Assim, deveríamos apontar o ataque para a causa fundamental dos problemas que enfrentamos, e não tentarmos superar somente os sintomas. Tendo “vestido toda a armadura de Deus”, estamos preparados para permanecer firmes “quando o dia do mau chegar” (v. 13).

Paulo assemelha a armadura que Deus nos deu à armadura usada pelos soldados romanos naquele tempo. Certamente, a diferença é que nossas armas não são físicas, mas espirituais. Contudo, elas não são espirituais no sentido de serem místicas; antes, cada arma representa uma série de verdades bíblicas que protegem uma área da nossa caminhada cristã.

Por exemplo, é possível que, quando Paulo escreve que a salvação é como um capacete, ele queria dizer que as verdades bíblicas sobre a salvação pretendem proteger nossa “cabeça”, ou nossa mente. Ou, quando a justiça é comparada a uma couraça, talvez ele queria dizer que nosso entendimento da justiça de Cristo e nossa justificação servem para guardar nossa consciência contra acusações.

Em todo caso, visto que Paulo de fato nomeia as doutrinas, podemos confiar que cada arma corresponde a uma doutrina bíblica que devemos aprender, a fim de que travemos a guerra com sucesso contra o inimigo. Visto que compreendemos a verdade doutrinária com a mente, na medida em que ela é iluminada pelo Espírito Santo, é inegável que todas estas armas espirituais sejam intelectuais, em sua natureza.

A relevância é que, quando “vestimos” toda a armadura de Deus, não o fazemos imaginando nós mesmos vestidos numa armadura mística, com uma aparência semelhante àquela de um soldado romano, nem exercemos o poder destas armas através de movimentos físicos. Antes, nossas armas têm “poder divino” para “destruímos argumentos...e levarmos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo” (2 Coríntios 10:4-5). Na batalha espiritual, tratamos com argumentos e pensamentos, com a mente ou o intelecto. Tal é a natureza da batalha e das armas.

Assim, interpretaremos a identificação de Paulo, de cada arma espiritual a uma peça correspondente da armadura do soldado romano, como significativo, no sentido de que é um capacete por uma razão –– a saber, para proteger a mente como um capacete físico protege a cabeça. Desta perspectiva, comparar a verdade com a função do cinto na armadura do soldado romano é também apropriado. Mesmo que isto leve a analogia de Paulo longe de mais, enquanto guardarmos em mente que estas são armas intelectuais nos dadas para lutarmos com argumentos intelectuais do diabo, estaremos trabalhando dentro dos limites do texto.

Paulo menciona duas peças da armadura no verso 14: “Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, com a couraça da justiça no lugar”. Iremos discutir o “cinto da verdade” neste capítulo, e reservar a “couraça da justiça” para o próximo.

Paulo diz que a verdade é como um cinto, e na armadura do soldado romano, é o cinto que sustenta o resto dos itens no lugar. Da mesma forma, a verdade sustenta tudo em nossa caminhada cristã, e, portanto, ela é suprema. Sem a verdade revelada a nós por Deus, na Escritura, não haveria justiça, paz, fé e salvação para nós “vestirmos”. Sem a verdade nos revelada por Deus, na Escritura, a espada do Espírito, que é a palavra de Deus, não existiria.

Agora, o que entendemos por verdade? Jesus diz, “Se vocês permanecerem firmes no meu ensino, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (João 8:31-32). Você conhecerá a verdade somente se “permanecer firme” ao ensino (grego logos = palavra, raciocínio, doutrina) de Jesus. Contrário à opinião de muitas pessoas, a força de um cristão não reside na experiência, oração, ou comunhão, mas na verdade –– isto é, nos princípios e doutrinas bíblicas ensinadas pela Escritura. Sem verdade, não podemos nem mesmo definir –– e dessa forma, não podemos “vestir” –– as outras peças da nossa armadura, tais como justiça, fé e salvação. Como um cristão, sua prioridade deve ser adquirir conhecimento da verdade. Visto que Deus nos revela a verdade através das palavras da Escritura, você deve buscar estudos bíblicos e teológicos para construir o fundamento de sua vida espiritual.

Jesus diz que o conhecimento da verdade libertará você. À medida que crescemos em nosso conhecimento e compromisso com a verdade, nos tornamos progressivamente protegidos do engano. 1 Coríntios 2:12 explica, “Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente”. Enquanto o diabo mente para nós e tenta nos enganar –– mas, todavia, debaixo do decreto soberano de Deus –– Deus enviou o Espírito Santo aos nossos corações para que “entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente”.

Como Pedro diz, “Seu divino poder nos deu tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade, por meio do nosso conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2 Pedro 1:3). Deus já nos deu “tudo de que necessitamos para a vida”, mas é “por meio do nosso conhecimento [dele]” que Suas provisões são aplicadas a nós. Tal conhecimento é encontrado somente na Escritura, e é o Espírito Santo quem soberanamente nos concede compreensão e assentimento a tal conhecimento.

Muitos cristãos professos crêem na mentira de que o espiritual é irracional e que o intelectual é não-espiritual –– que espiritualidade e racionalidade são mutuamente exclusivos. Mas, visto que armas poderosas em Deus nos foram dadas para “destruir argumentos” e para “levarmos cativo todo pensamento”, você não se tornará mais espiritual ignorando a natureza intelectual essencial da fé bíblica e da vida. Antes, ignorar o intelectual é parar completamente de resistir ao diabo e aos seus enganos, e, assim, descartando tudo das suas armas poderosas em Deus, você se tornará completamente não-espiritual de acordo com os padrões bíblicos.

5. A COURAÇA DA JUSTIÇA

Na batalha espiritual, devemos confiar no poder de Deus e não no nosso (Efésios 6:10), e quando vestimos toda a armadura de Deus, seremos capazes de ficar firmes contra os ataques de Satanás (v. 11). Isto é crucial, visto que nossa luta não é principalmente contra coisas ou seres naturais, mas contra “as forças espirituais do mal”, que são a causa fundamental de muitos dos problemas e idéias anti-cristãs que enfrentamos (v. 12). Portanto, devemos vestir toda a armadura de Deus, de forma que possamos permanecer firmes “quando o dia do mau chegar” (v. 13).

Começamos segurando o cinto da verdade (v. 14), que mantém as outras armas juntas na armadura cristã. A palavra de Deus é a verdade; portanto, para termos a verdade firmemente no lugar em nossas vidas, devemos aprender a verdade a partir da Bíblia.

Paulo então menciona a couraça da justiça: “Assim, mantenham-se firmes, cingindo-se com o cinto da verdade, com a couraça da justiça no lugar” (Efésios 6:14). Todos nós somos pecadores antes da conversão, e embora Deus tenha soberanamente mudado nossas disposições básicas na regeneração, ainda não alcançamos a perfeição, mesmo como cristãos, e continuamos a cometer pecados. Essas transgressões, contudo, ameaçam nossa confiança quando nos aproximamos de Deus.

João escreve, “Amados, se o nosso coração não nos condenar, temos confiança diante de Deus e recebemos dele tudo o que pedimos, porque obedecemos aos seus mandamentos e fazemos o que lhe agrada” (1 João 3:21-22). Ter um caminho para verdadeiramente tratar com o pecado, que leve à libertação da condenação, é essencial para permanecer confiante na presença de Deus, e isto vem de uma compreensão da justiça que Deus providenciou para nós através de Cristo. Esta justiça, então, funciona como uma “couraça” na nossa batalha espiritual, guardando nosso coração e consciência.

Precisamos saber que nunca podemos alcançar a verdadeira justiça pelas nossas boas obras; antes, ela deve ser imputada a nós por Deus. Paulo declara que a justiça é um dom (Romanos 5:17) que Deus concede aos Seus eleitos através da fé: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). A Bíblia ensina que “o homem é justificado pela fé, independente da obediência à lei” (Romanos 3:28). Jesus não cometeu nenhum pecado, mas “o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de todos nós” (Isaías 53:6), de forma que “todo o que nele crer não perecerá, mas tem a vida eterna” (João 3:16). Contudo, se Deus não lhe concedeu fé para confiar em Jesus Cristo para salvação, então, você não é justo: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus” (João 3:18).

A Escritura nos convida a “aproximarmo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada” (Hebreus 10:22). O cristão é uma pessoa justa, não por causa das suas boas obras, mas porque ele foi justificado por Deus, através da fé na obra de Jesus Cristo. Este entendimento nos dá a base pela qual podemos resistir tudo o que procura minar nossa confiança em nos aproximarmos de Deus, em adoração e oração.

Os cristãos continuam a cometer pecados freqüentemente, mas Deus providenciou uma solução para os pecados cometidos após a conversão, de forma que nossa comunhão com Ele possa permanecer intacta. Embora o pecado seja inescusável, Deus sabe “sabe do que somos formados” e “lembra-se de que somos pó” (Salmos 103:14), tem misericórdia de nós e tem nos dado um Advogado, de forma que “se alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2:1). Isto é, “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

Certamente, um cristão genuíno não abusará da graça de Deus, pecando o quanto ele quiser e pensando que tudo o que ele precisa é confessar os seus pecados depois. Alguém que faz isto não é um cristão de forma alguma, visto que um cristão foi soberanamente transformado por Deus: “Todo aquele que é nascido de Deus não continua a pecar, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode continuar pecando, porque é nascido de Deus” (1 João 3:9). Como Paulo disse, “Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente? De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele?” (Romanos 6:1-2). Aqueles que amam a Deus obedecerão a Sua Palavra: “Porque nisto consiste o amor a Deus: em obedecer aos seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados” (1 João 5:3).

6. O EVANGELHO DA PAZ

Após a couraça da justiça, Paulo diz que, ao vestirmos toda a armadura de Deus, devemos ter os nossos “pés calçados com a prontidão que vem do evangelho da paz” (Efésios 6:15). A Escritura algumas vezes usa a linguagem figurada de uma caminhada para representar nossa conduta diária, tal como quando Paulo diz, “Andamos por fé, e não por vista” (2 Coríntios 5:7).

Portanto, quando Paulo diz que o “evangelho da paz” (ou “a prontidão que vem” dele) é como calçado para o nosso caminhar cristão, ele está nos dizendo que o conteúdo intelectual do evangelho deve, não somente ser um tópico de discussão durante certos períodos de tempo e durante certas atividades, mas que ele deve ser uma parte integral e penetrante de nossa conduta diária. No contexto de batalha espiritual, o evangelho é o meio pelo qual avançaremos o reino de Deus e estenderemos suas fronteiras.

Programas, caridade, música, e nem mesmo oração, não são, no final das coisas, os meios decisivos pelos quais conquistaremos o território do inimigo. Antes, é pela publicação do conteúdo intelectual do evangelho –– tais como deidade, nascimento, morte e ressurreição de Jesus Cristo e suas implicações –– que destruiremos as fortalezas que têm sido construídas na mente dos incrédulos.

Nosso evangelho é um evangelho de paz, mas esta paz não tem nada a ver com os inimigos de Deus, tais como demônios e incrédulos –– Deus estabeleceu Seu povo contra aqueles que não do Seu povo, imediatamente após a queda do homem (Gênesis 3:15). Não é possível ter verdadeira paz com alguém que pertence ao reino das trevas. Antes, esta paz tem a ver somente com Deus e os cristãos. Como João diz, “Nós lhes proclamamos o que vimos e ouvimos para que vocês também tenham comunhão conosco. Nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1 João 1:3). Somente quando conquistamos o território inimigo com este evangelho, que os outros serão capazes de se unir a nós, nesta comunhão. Paulo diz em Romanos 16:20, “Em breve o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês”. Paulo diz que devemos ter a prontidão que vem do evangelho da paz, de forma que, não devemos apenas conhecer o conteúdo do evangelho para nós mesmos, mas devemos estar preparados para articular e defendê-lo aos outros. Pedro também nos instrui a fazer isto, e escreve, “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês” (1 Pedro 3:15).

Estejam sempre prontos a usar o evangelho para destruir a fortaleza intelectual anti-cristã que tem sido instalada nas mentes dos outros. Nunca seja pego sem um argumento para a cosmovisão cristã, ou sem uma refutação contra o pensamento não-cristão. Você deve estar preparado para responder a qualquer pessoa que lhe fizer perguntas sobre a fé cristã. Você deve ter um entendimento preciso e compreensivo das doutrinas bíblicas, e ser capaz de conclusivamente defendê-las contra todas as objeções. Esta é a responsabilidade de todo cristão; portanto, cada cristão deve se afundar no estudo da teologia e apologética.

O mandato bíblico para o cristão é que ele deve “ir pelo mundo todo e pregar as boas novas a toda criatura” (Marcos 16:15). Esta não é uma opção. Jesus ordenou Seus discípulos a pregarem o evangelho ao “mundo todo”. Isto é como destruiremos as obras de Satanás.

Paulo diz que ele “não se envergonhava do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). O evangelho é o “poder de Deus”, por meio do qual Deus realizará os Seus propósitos na terra. Deus nos fez Seus representantes, de forma que podemos publicar Seus mandamentos às nações: “No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam” (Atos 17:30).

Uma vez que tenha se estabelecido em nossas mentes que o evangelho é “o poder de Deus”, não nos “envergonharemos do evangelho”, nem ficaremos constrangidos pelas suas reivindicações e demandas. Quando começarmos a perceber e afirmar que o Cristianismo é superior a todas as outras formas de sistemas de crença, que é o único que realmente representa a Deus, e que ele é a única fonte de verdade e conhecimento, cessaremos de ser tímidos sobre a apresentação de suas reivindicações e demandas ao mundo. Uma vez que estejamos convencidos disto e tivermos aprendido a como articular e defendê-lo aos outros, alcançaremos “a prontidão que vem do evangelho da paz”.

O evangelho é deveras boas novas aos eleitos de Deus, e traz o crente a um lugar de paz com Deus e com o Seu povo. Ele é a “fragrância de vida” para aqueles que o aceitam, mas, assim como é uma arma contra o inimigo, ele carrega o “cheiro de morte” para aqueles que rejeitam suas reivindicações e demandas (2 Coríntios 2:16). Assim, aquele que prega o evangelho traz o poder de Deus para chamar e salvar aqueles a quem Deus escolheu para crer, e ao mesmo tempo, traz destruição e condenação àqueles a quem Deus designou como réprobos. Aquele que prega o evangelho é um mensageiro de Deus, liberando Seu poder para salvar e destruir, para justificar e condenar.

Contudo, contrário a muitas pessoas, eu discordo que o que é comumente chamado de “evangelismo” seja a prioridade mais alta da igreja. Antes, a Escritura indica que o ministério de ensino –– isto é, o treinamento teológico de crentes –– toma precedência ao evangelismo, e que o evangelismo não é um fim em si mesmo, mas somente o meio pelo qual os eleitos são trazidos à igreja, para que possam ser ensinados.

Isto pode soar estranho àqueles que estão acostumados a ouvir que evangelismo é a prioridade máxima da igreja. Esta visão anti-bíblica tem feito muitas pessoas negligenciar o investimento e participação no treinamento teológico dos crentes. Como resultado, muitos cristãos professos são fracos em intelecto, ignorantes de doutrinas bíblicas, e incompetentes em defender a fé. Afinal de contas, sem treinamento extensivo pela igreja e outras instituições (tais como família), como muitos cristãos irão alcançar a “prontidão” descrita acima? E como pode alguém pregar o evangelho apropriadamente sem ter uma compreensão das doutrinas bíblicas? Mas, visto que Deus nos ordenou proclamar e defender a fé, isto significa que sem treinamento bíblico e teológico, é impossível para um cristão obedecer a Deus.

Nenhum cristão duvidará do zelo evangelístico de Paulo, mas ele descreve seu próprio ministério dessa forma:

A ele quis Deus dar a conhecer entre os gentios a gloriosa riqueza deste mistério, que é Cristo em vocês, a esperança da glória. Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo. Para este fim eu me esforço, lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim. (Colossenses 1:27-29).

Ele diz que está “advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito em Cristo” (Colossenses 1:28). Ele diz que está fazendo a obra do ministério com a força de Deus, que atua poderosamente em nele (v. 29), de forma que ele pode, não trazer outros à conversão, mas, acima de tudo, “apresentar todo homem perfeito em Cristo”. Ele diz que é “para este fim” (v. 29) que ele se esforça.

A maturidade é o objetivo do ministério cristão, não a conversão. De fato, a conversão é somente um passo preliminar do eleito em direção à maturidade e perfeição em Cristo. Tanto o evangelismo como o ensino serve a finalidade última de produzir cristãos maduros, para serem apresentados a Cristo. Esta deveria ser a prioridade da igreja. Contudo, embora evangelismo termine uma vez que Deus soberanamente concede a uma pessoa arrependimento e fé, um crente requer ensino bíblico e teológico durante toda a sua vida. Evangelismo é um meio de período curto para um processo (ensino) de longo prazo, que, por sua vez, leva a uma finalidade ultima (maturidade). Assim, ver evangelismo como a maior tarefa da igreja é distorcer a natureza do ministério bíblico, e, como é freqüentemente o caso hoje em dia, o real objetivo da maturidade espiritual nunca é alcançado, ou sequer considerado.

De qualquer forma, visto que a tarefa principal da igreja é ensinar os crentes, a maioria do tempo e dinheiro das igrejas deveriam ser devotadaà educação bíblica e teológica dos cristãos, seja em forma de sermões, palestras, livros, fitas, programas de rádio e outros meios. Colocar o evangelismo em primeiro lugar resulta em acumulação de crentes fracos e conversos falsos, e faz da igreja um pobre testemunho ao mundo. Isto, por sua vez, mina o próprio evangelismo. Assim, colocar o evangelismo em primeiro lugar é anti-bíblico e auto-destrutivo.

No que é comumente chamado de a “Grande Comissão”, uma passagem freqüentemente usada para encorajar o evangelismo, Jesus diz:

“Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mateus 28:18-20)

Se Jesus pretendesse ordenar somente o evangelismo, por que este mandato inclui “ensinar” as pessoas? Se Jesus pretendesse ordenar o que as pessoas hoje chamam de evangelismo, então, seria desnecessário ensinar os não-cristãos a “obedecer a tudo” que o Senhor ordenou. Eu duvido que muitas pessoas recitem todos os mandamentos da Escritura, quando eles realizam o que eles chamam de evangelismo. Mas, esta passagem faz perfeito sentido quando percebemos que Jesus tem o ministério de ensino em mente –– Ele diz que “ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei” é uma parte essencial da Grande Comissão. Mesmo se entendermos as palavras, “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, como se referindo somente ao evangelismo, devemos admitir que a última parte, “ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei”, como se referindo ao ministério de ensino, com o primeiro (evangelismo) conduzindo ao último (ensino). Evangelismo é somente um meio de produzir conversos, de forma que possamos ensiná-los a obedecer todos os mandamentos de Cristo. Aqueles que exaltam o evangelismo à custa do ministério de ensino, desprezam o próprio mandamento de Cristo, o qual eles reivindicam estar realizando.

Para resumir, a Bíblia diz que o propósito do ministério é produzir cristãos maduros. Como Paulo escreve em Efésios 4:12-14, os ministros cristão são escolhidos por Deus “com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos...cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina...”. Certamente, para tornar-se maduro em Cristo, uma pessoa deve primeiro estar em Cristo, e, assim, eis a razão para o evangelismo. Isto significa também que o evangelismo não é o objetivo último do ministério cristão, mas o meio pelo qual podemos chamar os eleitos de Deus à união com Cristo, e através do processo de santificação, tornarem-se maduros nEle.

Portanto, evangelismo não é um ministério ou responsabilidade maior do que o ministério de ensino, mas ele serve somente como um modo de trazer pessoas ao ministério de ensino. Até mesmo o evangelismo é dependente de prévias instruções doutrinárias, recebidas por quem realiza o evangelismo. Porque a Escritura define todas as crenças cristãs, a doutrina necessariamente precede todas as atividades cristãs.

Assim, “a prontidão que vem do evangelho da paz” deve significar mais do que ter apenas compreensão suficiente do evangelho, para dizer a outra pessoa como afirmar a Cristo, mas ela refere-se a um conhecimento preciso e compreensivo das doutrinas bíblicas. De outra forma, todos os cristãos já deveriam estar suficientemente preparados, visto que todos eles já aprenderam o suficiente para afirmar a Cristo, e ninguém necessitaria obter tal “prontidão”, como Paulo diz para fazer. Contudo, o próprio fato de que Paulo diz para calçarmos a “prontidão” do evangelho, implica que ela não é automática, de forma que alguns cristãos podem não estar preparados com o evangelho. Somente o ministério de ensino pode remediar esta falta de preparação, e qualquer ministério assim chamado “evangelístico” que não forneça um ensino preciso e compreensivo da teologia cristã, é incompleto e anti-bíblico.

7. O ESCUDO DA FÉ

Chegando agora ao verso 16 da nossa passagem, Paulo introduz o escudo da fé: “Além disso, usem o escudo da fé, com o qual vocês poderão apagar todas as setas inflamadas do Maligno”. A palavra traduzida por “escudo” aqui é a palavra grega thyreon, e A. Skevington Wood escreve o seguinte:


Thyreon é derivado de thyra (uma porta) e refere-se ao grande quadrilongo ou ao escudo protetor oval do soldado romano, mantido na frente dele para proteção. Ele consistia de duas camadas de madeira coladas juntas, cobertas com linho e couro, e envolvidas com ferro. Os soldados freqüentemente lutavam lado a lado, com uma parede (testudo) sólida de escudos. Mas, mesmo um combatente sozinho encontrava-se a si mesmo suficientemente protegido. Após o cerco de Dyrachium, Sceva contou não menos do que 220 dardos cravados em seu escudo. Para o cristão, este escudo protetor é a fé (pistis).[1]

A questão é se “fé” aqui, refere-se à crença subjetiva do cristão ou ao conteúdo objetivo do Cristianismo. Wood responde, “Mas o crer não pode ser divorciado daquilo que se é crido, e nenhuma linha rígida deveria ser traçada entre estes dois aspectos”. [2] Mas a declaração de Wood não trata o assunto corretamente. Mesmo se o crer não possa ser divorciado do que é crido, o que é crido pode deveras ser distinguido do que deve ser crido. Isto é, a crença subjetiva do cristão não está sempre de acordo com o conteúdo objetivo do Cristianismo. Certamente, neste caso, o que é “usado” pela pessoa não é, no sentido exato, “o escudo da fé, mas alguma outra coisa, e o verdadeiro escudo permanece no chão, por assim dizer.

Já estabelecemos anteriormente que cada peça da armadura representa a doutrina bíblica que corresponde a ela. Mas então, isto significa que cada peça da armadura refere-se ao conteúdo objetivo do aspecto da fé cristã que ela representa, e não a crença subjetiva do indivíduo sobre o assunto. Isto é, o escudo da verdade refere-se à própria verdade, e não ao comprometimento do cristão à ela. Da mesma forma, a couraça da justiça representa a doutrina bíblica sobre o assunto, mas não implica por si mesma a percepção subjetiva do indivíduo dela. Paulo certamente não está dizendo aos seus leitores para “vestir suas crenças subjetivas”, visto que, antes de mais nada, as crenças subjetivas de alguém nunca são “tiradas”! Antes, seu ponto é que o cristão deve deliberadamente “vestir” algo que ele pode ou “vestir” ou “despir” –– isto é, algo que tenha existência e validade objetiva, independentemente das crenças subjetivas do indivíduo.

Ele está chamando seus leitores a tomarem posso e identidade com as doutrinas bíblicas representadas por estas peças da armadura. A verdade é verdade por si só, quer alguém concorde com ela ou não; contudo, ela não beneficiará alguém que não estrutura seus pensamentos e ações de acordo com ela. O conteúdo do evangelho permanece o mesmo se uma pessoa compreende somente uma pequena fração dele, mas quando ele se coloca em estudo e treinamento intensivo, e permite que o evangelho governe sua conduta diária, ele torna-se alguém que está preparado para avançar o reino de Deus. Da mesma forma, o escudo da fé pode representar muito pouco o conteúdo objetivo da fé cristã, mas ele só protegerá aquele que o toma e o coloca diante de si.

Sobre o ataque demoníaco contra a igreja, Wood escreve, “Mas, no contexto de Efésios, eles parecem ter deliberadamente tentado destruir a unidade do corpo de Cristo” (3:14-22; 4:1-16, 27) através da invasão de doutrinas falsas e fomentação de dissensão (4:2, 21, 31, 32; 5:6)”.[3] Paulo instrui os filipenses a serem “de mesma mente” (Filipenses 2:2, NASB), e que eles deveriam “com uma só mente” estar “lutando juntos pela fé do evangelho” (1:27, NASB). Uma igreja pode dificilmente ser “de mesma mente” se seus membros não concordarem sobre o conteúdo do evangelho, e quando as doutrinas falsas controlam as mentes de muitos cristãos professos. Divisão e heresia impregna a igreja hoje, pois ela negligencia o estudo da teologia e apologética bíblica.

As falsas doutrinas são como “setas inflamadas”, rapidamente espalhando destruição. Mas o escudo da fé pode “apagar todas as setas inflamadas do Maligno”. Se o escudo da fé refere-se ao conteúdo da fé cristã, então, usá-lo significa aprender e afirmar o conteúdo da Escritura. Aqueles que entendem completamente e afirmam fortemente as doutrinas bíblicas são capazes de resistir e sobrepujar as falsas idéias que são lançadas no seu caminho. Embora isto requeira força e disciplina, para tomar este escudo e mantê-lo diante de nós, seu uso é, algumas vezes, notadamente simples, especialmente quando o usamos para impedir ataques contra as nossas mentes:

Embora Paulo não dê exemplos individuais destas setas inflamadas, Hodge menciona pensamentos horríveis, blasfemos, cépticos e sugestões mais sutis de cobiça, descontentamento e vaidade. Estas, ou tudo o mais que a figura de linguagem possa representar, são extintas pela fé. Os pensamentos maus devem ser desalojados e expelidos por pensamentos bons. Se no meio de problemas duvidamos do poder ou da sabedoria de Deus, deveríamos dizer para nós mesmos, 'Eu creio em Deus, o Pai Todo-Poderoso', ou repetir alguns versos que falam da Sua amorosa bondade. Assim, as doutrinas da fé expelirão as falsas idéias. [4]

Que o escudo da fé e as setas inflamadas são intelectuais e doutrinárias em natureza, produz certas implicações, a saber, “Já deveríamos ter estudado ou memorizado algumas porções da Escritura, para termos algo para lembrar. Este estudo é, antes de mais nada, como erguer o escudo”. [5] Aquele que é fraco no entendimento bíblico e teológico não tem levantado o escudo da fé, e deveras não pode fazer até que ele tenha aprendido o básico da teologia e da apologética. Até então, ele tem pouca proteção contra as falsas idéias que vêm contra ele. Uma vez que um membro da igreja é prejudicado ou contaminado por falsas doutrinas, o dano pode se espalhar rapidamente, se não averiguado, pois “um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gálatas 5:9). É importante para os líderes da igreja ensinar o seu povo, de forma que eles se tornem hábeis no uso do escudo da fé (Hebreus 5:13-14; Efésios 4:11-16).

Assim, levantar o escudo da fé não é somente uma questão de vontade, mas também de entendimento. Não é somente uma questão de volição, mas também de intelecto. De fato, o entendimento intelectual das doutrinas bíblicas necessariamente precede o assentimento volitivo às doutrinas bíblicas, visto que a vontade não pode se comprometer a algo que nem mesmo existe ali. Se o escudo da fé representa o conteúdo objetivo da Escritura, então, a compreensão de um comprometimento volitivo à Escritura representa o ato de levantar. O tamanho grande do escudo é significante. O conhecimento da verdade é uma área que não pode oferecer proteção contra a falsidade e confusão na outra área. Portanto, levantar o escudo da fé implica obter um conhecimento compreensivo da Escritura.

8. O CAPACETE DA SALVAÇÃO

O capacete era “a parte mais ornamental da armadura primitiva”,[6] e Paulo usa esta peça atrativa da armadura para representar a salvação: “Tomem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17). Charles Hodge escreve:

O que adorna e protege o cristão, que o capacita a levantar sua cabeça com confiança e alegria, é o fato que ele está salvo. Ele é um dos redimidos, transladados do reino das trevas para o reino do querido Filho de Deus. Se ainda debaixo de condenação, se ainda alheio a Deus, um estrangeiro, um alienado, sem Deus e sem Cristo, ele não poderia ter coragem para entrar neste conflito. É porque ele é um cidadão dos santos, um filho de Deus, um participante da salvação do evangelho, que ele pode enfrentar os inimigos mais potentes com confiança, sabendo que ele será sempre mais do que vencedor através daquele que o amou. [7]

Em certo sentido, Deus revela Sua bondade a todos: “Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Mesmo aqueles hostis a Deus devem dependem constantemente de Seu sustento para a sua própria existência, “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Todos deveriam ser comovidos pela bondade de Deus, e, assim se arrependerem a Deus e crerem em Cristo. Mas sem a decisão soberana de Deus, eles não se arrependem e crêem, e nem o podem fazer; portanto, a bondade geral de Deus resulta na condenação eterna dos réprobos.

A Escritura nos mostra que a graça salvadora de Deus é revelada somente aos Seus eleitos –– Seus escolhidos –– e os ímpios não têm parte nela:

“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém sabe quem é o Pai, a não ser o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar” (Lucas 10:22).

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:44).

“Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado” (Efésios 1:4-6). [8]
Assim, a salvação distingue os cristãos do resto da humanidade. Os cristãos são o povo escolhido de Deus: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9). Todos os outros seres humanos são não-salvos, porque Deus não os escolheu.

O capacete pode representar a salvação do cristão de outro modo significante, além de sua atratividade, a saber, “Tomar é realmente receber ou aceitar (dexasthe). Os itens anteriores foram dispostos para o soldado apanhar. O capacete e a espada deveriam ser entregues a ele por um assistente ou por seu carregador de armadura. O verbo é apropriado para a 'inquestionabilidade' da salvação”. [9]

O capacete representa apropriadamente a salvação cristã, não somente por causa da sua atratividade, mas também por causa da maneira na qual o cristão o veste. Embora o adornar as outras peças da armadura dependa da volição do crente, a salvação é totalmente dependente de Deus. [10] Jesus lembra aos Seus discípulos: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome” (João 15:16). O cristão não deve se elogiar que ele tenha “aceito a Cristo”, [11] pois é melhor e mais sábio do que os incrédulos em si mesmo, quando na realidade foi Deus quem soberanamente o escolheu e aceitou: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”. A única razão de sermos capazes de amá-Lo é “porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Assim, no lugar de auto-congratulação e ostentação, deveríamos oferecer ação de graças a Deus, que nos escolheu e nos mostrou misericórdia, não por causa de qualquer prévia condição em nós, mas por causa da sua soberana vontade.

Com respeito a se há qualquer significação em a salvação ser representada por um capacete, alguns sugerem que “a metáfora refere-se a pureza de mente”, [12] mas outros dizem que isto pode ser “muito imaginativo”.[13] Para entender corretamente a passagem, não deveríamos aplica a metáfora de uma forma que exceda a intenção do escritor; contudo, mesmo que Paulo não enfatize explicitamente o intelecto com o capacete como uma metáfora, muitos elementos durante toda a passagem implicam em tal ênfase.

Por exemplo, verdade, justiça, o evangelho, fé (tanto em seu aspecto subjetivo e objetivo), salvação, e a palavra de Deus, implicam em conteúdo intelectual para ser entendido pela mente. Portanto, mesmo que fazer da salvação um capacete não seja em si mesmo uma tentativa de enfatizar a compreensão intelectual da soteriologia, a inclusão desta ênfase é inescapável. Em outro lugar, Paulo escreve, “[As Escrituras] são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15). A sabedoria salvadora vem de uma compreensão intelectual da Bíblia, aplicada às nossas mentes para efetuar conversão e santificação pelo Espírito Santo.

Temos derivado diversos pontos à partir da metáfora de que a salvação é como um capacete para o cristão. Primeiro, a salvação é “a parte mais ornamental” do Cristianismo, tanto que “até os anjos anseiam observar” (1 Pedro 1:12). Além disso, a fé com a qual afirmamos o evangelho não “não vem de nós mesmos, é dom de Deus”, para que “ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Em adição, é de extrema importância que obtenhamos uma profunda compreensão teológica da salvação, visto que somente então estaremos apropriadamente vestindo o capacete da salvação, que é capaz de nos proteger de numerosas falsas doutrinas que rodeiam o assunto.

9. A ESPADA DO ESPÍRITO

A peça final da armadura é a espada, que representa a palavra de Deus: “Tomem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Efésios 6:17). Visto que a oração é mencionada no verso 18, algumas pessoas se perguntam se é ela que deve ser entendida como a peça final da armadura. Francis Foulkes responde, “A descrição do equipamento do cristão para o conflito não pode senão incluir a referência à oração”, mas baseado na própria passagem, a oração “não pode ser totalmente descrita como uma parte da armadura”.[14] Embora a oração seja relevante para o conflito espiritual, Paulo não parece incluí-la como parte da armadura. Assim, concluímos nosso estudo da nossa armadura espiritual examinando a espada do Espírito, que é a palavra de Deus.

Nos tempos antigos, havia diversos tipos de espadas, variando em tamanho e peso; contudo, visto que Paulo está traçando suas metáforas à partir das armas dos soldados romanos, a “espada” pode se referir somente à “espada curta e reta dos soldados romanos”.[15] Isto é também indicado pelo uso da palavra grega machaira por Paulo, em oposição à palavra para a espada comprida, rhomphaia, como usada num verso como Lucas 2:35.

Alguns comentaristas observam que a espada é a única arma usada para o ataque na série da armadura descrita. De fato, a espada é tanto uma arma defensiva como ofensiva. Além do seu óbvio propósito de matar o inimigo, ela também serve para “desviar os golpes” [16] desferidos contra ele. A implicação dela ser uma espada curta é que a luta envolve encontros próximos com o inimigo, o que demanda o uso de uma arma relativamente leve e flexível.

Que esta espada é “do Espírito” (grego: tou pneumatos) não significa que somente que ela é de uma natureza espiritual (como em “espada espiritual”), mas também que a palavra, como mencionada previamente em conjunção com o capacete, “deveria ser entregue [ao soldado] por um assistente ou por seu carregador de armadura”, [17] e assim, a tradução de Barth, “a palavra providenciada pelo Espírito”.[18] A palavra é “do Espírito” no sentido de que ela é produzida e nos dada pelo Espírito Santo.

Nós encontramos algumas dificuldades quando chegamos ao ponto onde esta palavra é dita ser “a palavra de Deus”. Há três interpretações propostas, e visto que uma delas é obviamente falsa, nós a contestaremos primeiro.

A primeira visão ensina que as palavras da Escritura, particularmente aquelas “dadas” a pessoa pelo Espírito no momento, quando expressas através dos lábios crentes de um cristão, formam o que constitui uma palavra real ou figurada no reino espiritual, para infligir danos sobre as forças demoníacas.

Esta interpretação mística sugere que o poder da palavra do Espírito não reside no conteúdo intelectual da palavra de Deus, mas na força bruta que ela contém para sobrepujar o inimigo. Contudo, como Gordon Fee diz, “[Paulo] simplesmente não entendia a fascinação com 'palavra' que alguém encontra entre alguns carismáticos contemporâneos”. Esta visão em questão falha completamente em considerar “o modo como ele ordinariamente usa este tipo de linguagem”. [19]

A segunda visão reivindica que, visto que a palavra grega rhema é usada em “a palavra de Deus” como oposta ao logos, a palavra do Espírito deve então se refere a uma “palavra” dada no momento pelo Espírito Santo.

É verdade que podemos depender do Espírito Santo para trazer às nossas consciências, versos da Escritura que necessitamos para confrontar um pensamento, tentação ou argumento particular. Contudo, seria mais do que tolo pensar que, mesmo versos bíblicos obviamente relevantes são ineficazes contra um pensamento ou argumento anti-bíblico, a menos que eles sejam primeiro, de alguma forma, “despertados” pelo Espírito na hora. Mas esta tolice mística parece ser o que esta segunda visão declara ou implica.

O cristão obtém sua “espada” e torna-se hábil no uso dela durante o seu usual treinamento bíblico e teológico na igreja. Tendo se preparado, ele não deveria requerer uma palavra especial a ser lhe dada na hora quando ele estiver sob ataque, visto que ele já tem vários versos aplicáveis da Escritura, em sua mente. O cristão não deveria requerer qualquer unção especial do Espírito, antes de aplicar versos obviamente relevantes da Escritura à situação.

Esta segunda visão leva muito longe a alegada distinção entre rhema e logos, visto que uma “referência a uma concordância mostra que tanto esta palavra (rhema) como a palavra grega logos são freqüentemente usadas no mesmo sentido no Novo Testamento”. [20] Várias idéias falsas relatadas, que alguns cristãos crêem, podem ser traçadas à pregação popular excitada daqueles que têm aplicada as distinções alegadas entre duas palavras ao extremo, dando a impressão que, embora logos seja a palavra de Deus, ela é inútil e ineficaz até que seja “vivificada” pelo Espírito, e assim, alegadamente se tornando rhema. Este ensino é falso e anti-bíblico. Paulo escreve, “Toda a Escritura é soprada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16-17). Todo verso da Escritura é “soprado por Deus” –– “vivo” e eficaz em todos os tempos, mesmo sem qualquer unção especial passada a ele.

Dito isto, o uso da palavra rhema por Paulo tem realmente algum significado. Agora, Gordon Fee escreve:

Embora estas palavras sejam sinônimas próximos e, portanto, possam ser freqüentemente usadas de modo intercambiável, rhema tende a colocar a ênfase sobre o que é dito num determinado ponto, enquanto que logos freqüentemente enfatiza o conteúdo da “mensagem”.


Contudo, isto não leva à conclusão da segunda visão, como descrita cima. Fee continua:

Se esta distinção é sustentada aqui, então, Paulo está, quase que certamente, se referindo ainda ao evangelho, assim como ele o faz em Romanos 10:17, mas a ênfase é agora sobre a real “comunicação” da mensagem, inspirada pelo Espírito. Para colocar em termos mais contemporâneos, ao urgi-los a tomarem a espada do Espírito e então identificar esta espada com a “palavra de Deus”, Paulo não está identificando a “espada” com o livro, mas com a proclamação de Cristo, que, em nosso caso, é deveras encontrada no livro. [21]

Isto nos leva à terceira visão, que diz que a espada do Espírito não é outra coisa senão a publicação e aplicação das palavras da Escritura. Ela se refere ao intelectual e não ao místico. Das três visões listadas, esta é a única que reflete o significado e intenção da metáfora de Paulo sobre a espada do Espírito sendo a palavra de Deus.

Assim, o conteúdo derhema não é diferente do conteúdo de logos, embora em certos casos rhema possa denotar comunicação real do conteúdo. Sempre que as idéias cristãs e não-cristãs se confrontarem, o crente deverá estar preparado, não somente para manter sua posição, mas também para invadir e capturar o território do inimigo. Todo exemplo de interação oral ou escrita na qual o cristão defende as idéias cristãs e ataca as idéias não-cristãs é uma manifestação da palavra do Espírito. A expressão intelectual da palavra de Deus é o rhema de Deus; é uma palavra que vem do Espírito.

É mais do que tolo e anti-escriturístico pensar que devemos esperar até que o Espírito Santo “desperte” um verso da Escritura para nós, antes que possamos eficazmente responder a um argumento ou pensamento anti-bíblico, mesmo quando já sabemos como respondê-lo, a partir de nossos estudos anteriores da Escritura. Em vez disso, a própria Escritura mantém que todo verso bíblico é verdadeiro, eficaz, e “vivo” sempre (2 Timóteo 3:16; Hebreus 4:12). Você deve usar o que já sabe sobre a Escritura para combater o inimigo, antes do que pensar que tudo que você já sabe sobre a Escritura é inútil, até que uma parte dela seja “despertada” para sua situação particular. Isto significa que, se você sabe muito pouco, você será incapaz de eficazmente sobrepujar os ataques espirituais contra você. O remédio não é esperar por algum “despertamento” místico do Espírito Santo; antes, a única solução é um programa de intensa educação teológica (2 Timóteo 2:15).

Consideraremos agora um exemplo de como Jesus empunhou a espada do Espírito contra o diabo:

Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’”. Então o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: “Se és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: “ ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’”.Depois, o Diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”. Então o Diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram.
(Mateus 4:1-11)


Esta passagem ilustra como Jesus usa a palavra do Espírito para vencer a tentação. Em todos os três exemplos, ele traz e aplica citações diretas da Escritura para contra-atacar as palavras de Satanás.

No primeiro exemplo, ele cita Deuteronômio 8:3 para resistir ao diabo. Vendo como Jesus usa a Escritura para de defender a primeira vez, o diabo faz uma segunda tentativa e cita o Salmo 91:11-12, esperando enganar e persuadir a Cristo. Mas Jesus responde dizendo, “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus”, citando Deuteronômio 6:16.

Todas as batalhas espirituais envolvem a autoridade e a aplicação da Escritura, e raciocínios e argumentos teológicos. Nesta segunda tentativa, Satanás cita uma passagem bíblica que, quando falsamente entendida e aplicada, parece permitir Jesus pular do templo. Mas Jesus nota que Satanás não tomou toda a Escritura em conta, assim, Ele diz, “Também está escrito” na Escritura que ninguém deve colocar Deus à prova, e assim, ele expõe o uso inapropriado de Satanás do Salmo 91:11-12.

Este breve exemplo produz várias implicações importantes. Por exemplo, a resposta que Jesus dá necessariamente assume a unidade da Escritura, que uma parte da Bíblia concorda com todas as outras partes, e que uma parte da Bíblia nunca contradiz qualquer outra parte. Disto temos deduzido um princípio hermenêutico que cristãos fiéis têm afirmado por um longo tempo. Em adição, como Jesus manuseou esta segunda tentação suporta fortemente a disciplina da teologia sistemática.

Manejar a espada do Espírito é apresentar e defender as verdades bíblicas e atacar as crenças não-bíblicas através de argumentos lógicos rigorosos baseados na Escritura. Portanto, o uso desta arma aplica-se à pregação, escrita, debates e conversas ordinárias nas quais a fé cristã deve ser apresentada e defendida, e as crenças não-cristãs atacadas e refutadas.

Tudo isto pode soar estranho àqueles que estão acostumados a ver a palavra do Espírito a partir de uma perspectiva mística, antes do que pensar nela como o ato de argumentar contra os inimigos do pensamento bíblico, ou defender a fé contra os seus ataques. Contudo, é realmente a atitude mística para com a espada do Espírito que é estranha ao pensamento bíblico. É muito perigoso se equivocar sobre a natureza e uso desta arma, ou de qualquer outra peça da armadura espiritual que Deus nos deu. Assim, contra a atitude mística, devemos insistir que a espada do Espírito se refere às apresentações e argumentos intelectuais cujos conteúdos e formas são derivados da Escritura. Matthew Henry escreve, “A palavra de Deus é muito necessária, e de grande uso para o cristão, para sua preservação na batalha espiritual e sucesso nela...com isto, assaltamos os assaltantes. Os argumentos da Escritura são os mais poderosos argumentos....”. [22]

A resposta de Cristo à segunda tentação de Satanás, mostra que a espada do Espírito avança do reino de Deus através de argumentação baseada na Escritura, cuja interpretação é governada pelo pensamento lógico. É pelo empunhar persistente da espada do Espírito desta maneira que saquearemos os territórios agora ocupados pelo diabo –– isto é, resgataremos as mentes dos eleitos e confundiremos as mentes dos réprobos (2 Coríntios 4:4-6, 10:3-5).

Exemplos da espada do Espírito sendo empunhada através de argumentação escriturística abundam no ministério de Paulo:

Segundo o seu costume, Paulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escrituras, explicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: “Este Jesus que lhes proclamo é o Cristo”. Alguns dos judeus foram persuadidos e se uniram a Paulo e Silas, bem como muitos gregos tementes a Deus, e não poucas mulheres de alta posição. (Atos 17:2-4)

Enquanto esperava por eles em Atenas, Paulo ficou profundamente indignado ao ver que a cidade estava cheia de ídolos. Por isso, discutia na sinagoga com judeus e com gregos tementes a Deus, bem como na praça principal, todos os dias, com aqueles que por ali se encontravam. (Atos 17:16-17)

Todos os sábados ele debatia na sinagoga, e convencia judeus e gregos. Depois que Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo se dedicou exclusivamente à pregação, testemunhando aos judeus que Jesus era o Cristo. (Atos 18:4-5)

Chegaram a Éfeso, onde Paulo deixou Priscila e Áqüila. Ele, porém, entrando na sinagoga, começou a debater com os judeus. (Atos 18:19)


Paulo é enfático sobre a natureza intelectual do nosso conflito com Satanás:

Pois, embora vivamos no mundo, não lutamos segundo os padrões do mundo. As armas com as quais lutamos não são do mundo; ao contrário, elas têm poder divino para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo. (2 Coríntios 10:3-5)

O diabo “cegou o entendimento dos incrédulos, para que não vejam a luz do evangelho” (2 Coríntios 4:4), e é o nosso propósito “destruir argumentos” que têm sido levantados contra a fé bíblica, e “levar cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo”.

Retornando a Mateus 4, Jesus conclui seu encontro com Satanás:

Depois, o Diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto”. Então o Diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram. (Mateus 4:8-11)

Jesus sela a derrota de Satanás com a correta aplicação da Escritura, e sai vitorioso da tentação.

Alguém que empunha poderosamente a espada do Espírito é alguém que possui considerável conhecimento teológico e excelente poderes de raciocínio. Por outro lado, alguém que carece destes recursos espirituais pode nunca infligir muito dano ao reino das trevas. Portanto, prestemos atenção às palavras do apóstolo Paulo, que diz, “Seja diligente em apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15, NASB).



NOTAS:

[1] - The Expositor's Bible Commentary, Vol. 11; Zondervan Publishing House, 1978; p. 88. [voltar]

[2] - Ibid., p. 88. [voltar]

[3] - Ibid., p. 86. [voltar]

[4] - Gordon H. Clark, Ephesians; Jefferson, Maryland: The Trinity Foundation, 1985; p. 208. [voltar]

[5] - Ibid., p. 208. [voltar]

[6] - Charles Hodge, A Commentary on Ephesians; Banner of Truth Trust, 1991; p. 286. [voltar]

[7] - Ibid., p. 286. [voltar]

[8] - Veja também Romanos 9:8-28. [voltar]

[9] - The Expositor's Bible Commentary, Vol. 11; p. 88. [voltar]

[10] - Todavia, esta é somente uma questão de ênfase, visto que mesmo a volição de colocar as outras peças da armadura vem da vontade soberana de Deus (Filipenses 2:12-13). [voltar]

[11] - Nós podemos questionar se esta é ao menos uma terminologia bíblica. [voltar]

[12] - Clark, Ephesians; p. 209. [voltar]

[13] - Ibid., p. 209. [voltar]

[14] - Francis Foulkes, Tyndale New Testament Commentaries, Vol. 10, Revised Edition; Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1989; p. 184. [voltar]

[15] - Markus Barth, The Anchor Bible, Vol. 34A; New York: Doubleday, 1974; p. 776. [voltar]

[16] - Marvin Vincent, Vincent's Word Studies in the New Testament, Vol. 3; Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers; p. 410. [voltar]

[17] - The Expositor's Bible Commentary, Vol. 11; p. 88. [voltar]

[18] - The Anchor Bible, Vol. 34A; p. 776. [voltar]

[19] - Gordon Fee, God's Empowering Presence; Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1994; p. 728-729.[voltar]

[20] - Tyndale New Testament Commentaries, Vol. 10; p. 184. [voltar]

[21] - God's Empowering Presence; p. 728-729. [voltar]

[22] - Matthew Henry's Commentary on the Whole Bible; Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1991; p. 2319. [voltar]


Nota sobre o autor: Vincent Cheung é o presidente da Reformation Ministries International [Ministério Reformado Internacional]. Ele é o autor de mais de vinte livros e centenas de palestras sobre uma vasta gama de tópicos na teologia, filosofia, apologética e espiritualidade. Através dos seus livros e palestras, ele está treinando cristãos para entender, proclamar, defender e praticar a cosmovisão bíblica como um sistema de pensamento compreensivo e coerente, revelado por Deus na Escritura. Ele e sua esposa, Denise, residem em Boston, Massachusetts.



Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 05 de Março de 2005.


http://www.monergismo.com/

Este site da web é uma realização de
Felipe Sabino de Araújo Neto®
Proclamando o Evangelho Genuíno de CRISTO JESUS, que é o poder de DEUS para salvação de todo aquele que crê.

TOPO DA PÁGINA

Estamos às ordens para comentários e sugestões.

Livros Recomendados

Recomendamos os sites abaixo:

Academia Calvínia/Arquivo Spurgeon/ Arthur Pink / IPCB / Solano Portela /Textos da reforma / Thirdmill
Editora Cultura Cristã /Editora Fiel / Editora Os Puritanos / Editora PES / Editora Vida Nova

Creditos à monergismo.net.br